DES(P)ERTO DALI

Quem pudesse vê-lo à distância não o reconheceria, naquele deserto imaginário em que se sentia à mercê da sede de paz. Era ali que se isolava quando lhe parecia que não estava à altura daquilo que se sabia capaz, um homem que vivia tão depressa que quase derrapava nas curvas aceleradas do mundo que chamava seu.

Fechava-se agora num planeta árido, sem céu, o horizonte vazio de um deserto, tudo tão longe e a morte tão perto da sua mente, a lucidez intermitente que julgava salvação mas o torturava com uma aflição aguda que quase fazia doer a cabeça castigada pelo calor de uma luz que saía do nada por cima de si.

Estava além, passava por ali. Sem pontos de referência nem um objectivo a alcançar, limitava-se a caminhar a sós num deserto alienígena, desorientado. Mas preferia-se sossegado naquele refúgio sagrado que o poupava a uma razão empenhada em massacrar-lhe a vontade de ficar longe daquele ponto de fuga onde mergulhava no silêncio que encontrava nos oásis postiços da sua miragem interior.

Estava ali, sem ir para além. Sentia-se melhor sem partilhar o seu pior com os outros de quem fugia para um espaço amplo que não passava de uma caixa forrada por dentro com um cenário onde desempenhava o seu papel, onde poupava os outros à loucura reflectida na sua obsessão, a mente enfraquecida pela pressão e o corpo à deriva naquele deserto, tudo tão longe e a morte tão perto da cabeça que agarrava com ambas as mãos quando reunia a força necessária para romper o ciclo demolidor, para escapar ao interior isolado rumo a uma pena capital como sentia a sua incapacidade de reagir e o receio de interagir por temer o contágio do mal que o arrastava para aquele papel de caminhante solitário, a pele do dromedário na história beduína para a qual não encontrava um fim.

 

Estava aquém, ficava por ali.

E não queria de todo que outros o vissem assim.

publicado por shark às 16:50 | linque da posta | sou todo ouvidos