PASSAGEIRO CLANDESTINO

Olhas aquele ponto imaginário no céu e pensas que é o avião contigo a bordo, a caminho de uma terra qualquer onde consigas sobreviver sem aflições.

Olhas e deixas-te embalar pela esperança em ilusões, renovas a confiança na tua capacidade de dar a volta a tudo aquilo que te atormenta, voas livre sobre o mar e acreditas que vai chegar o dia em que olhas para trás com a tranquilidade de quem encontrou a paz ansiada numa qualquer terra prometida de tudo aquilo que a tua negou.

 

Olhas acima da linha do horizonte e cerras as pálpebras para distinguires nesse ponto distante, no céu, o transporte para o paraíso no futuro que preparas para ti, no amanhã que é logo ali, tão perto que já é hoje e quando chegas a essa conclusão percebes que de um ontem se tratava, olhado sob a perspectiva de quem não percebe a passagem do tempo que arrisca tentar medir.

Olhas e aceitas-te a fugir em frente, neste passado já presente que te é dado ponderar na ilusão de que conseguirás mudar tudo até amanhã que afinal já passou, já é tarde, o teu futuro que arde diante dos olhos que te revelam finalmente a realidade daquele ponto cada vez mais distante no horizonte da tua imaginação.

 

E percebes que não se trata de um avião para um destino alternativo, outra vida, contigo a bordo nessa viagem, mas apenas uma miragem da reviravolta voada, do milagre que anseias mas tarda a acontecer.

Percebes-te então estatelado no chão de um deserto, mais os sonhos moribundos e a fé a perecer.

Porque até o anjo da guarda na linha do horizonte, nesse teu céu, num ponto distante da consciência que sentes prestes a desaparecer, perdeu a paciência e deixou-te cair.

publicado por shark às 15:14 | linque da posta | sou todo ouvidos