SENTIDO CONTRÁRIO

Vês o caminho cortado e de repente és o animal ferido, o animal encurralado que desvia toda a sua força, toda a sua energia, para a melhor defesa possível, o ataque imprevisível sem perder tempo a tentar distinguir a mão amiga da que possa desferir mais um golpe e seja esse o da misericórdia que acabaste de desacreditar.

Vês o beco sem saída a surgir, de repente, no rumo da tua vida e percebes que não podes avançar sem inverteres o sentido obrigatório, sem perderes tudo o que é necessário para ser possível retomares a passada no futuro que entretanto se alterou de forma radical. Não estavas bem e vais de mal a pior, sentes o cerco apertar e queres dar luta mas há um exército de filhos da puta preparado para te esmagar, o animal ferido que te sentes agora, que metes as unhas de fora e arreganhas a dentuça porque estás farto de lavar na fuça sem ripostar.

Nessa altura já nem tens medo de perder uma batalha, ou várias, nessa guerra suja que é feita de histórias onde a coragem e a honra não desempenham qualquer papel, assinaste folhas besuntadas de mel que afinal eram cartas armadilhadas, um somatório de causas perdidas no futuro que está a acontecer agora, numa sucessão de explosões que te despertam para o conflito iminente, surgido de repente no percurso que entendeste traçar, leviano, sem pensar, quando pactuaste com o falso amigo que a conjuntura mais a sua natureza desleal viraram contra ti.

Vês o horizonte logo ali, ao virar de uma esquina, imediato, o beco sem saída no rumo da tua vida, cinzento temporal, não estavas bem e agora só resta o mal menor, a fraca consolação de que há quem esteja pior, incapacitado, e tu afinal apenas encurralado, como um animal que renega toda a esperança por perder a confiança no ambiente que o rodeia e que sente, ferido de morte, como hostil.

 

Perdido por um, perdido por mil.

publicado por shark às 17:13 | linque da posta | sou todo ouvidos