POR DENTRO

Sentia-se no meio de um espaço fechado, de um espaço apertado que sufocava até as palavras por dizer, a revolta por gritar mesmo antes do nó que na garganta entretanto se formou.

Por entre a lividez explodia-lhe o olhar que parecia procurar um ponto de referência, parecia querer agarrar-se a uma tábua de salvação que acabasse com a dificuldade de respirar, um fogo medonho naquele olhar que parecia procurar no horizonte um extintor que apagasse aquele rastilho que sentia queimar, por dentro.

 

Sentia-se num poço inundado, um poço sem fundo onde caía sem saber se voltaria a pousar os pés em terra firme, a raiva por libertar mesmo no centro do peito que marcava o ritmo a galope num planalto da sua mente e a beira do precipício logo ali, a atracção do abismo a chamar por si e o olhar vidrado, o olhar embaciado pelas emoções condensadas, as lágrimas evaporadas, por dentro.

 

Sentia-se no meio de um mar agitado, de um mar revoltado pela força do vento e pela corrente do pensamento, o ódio por exprimir mesmo por detrás das pálpebras semicerradas que entretanto fechou.

Precisava pensar direito, tentou encontrar um efeito contrário ao da espiral descendente que arrastava para o centro do remoinho onde se afogava já parte da esperança que não queria soltar à sua sorte, não queria condená-la à mesma morte que acontecia numa parte de si naquele preciso momento, numa parte devastada pelo desgosto que a consumia.

 

Por dentro.

publicado por shark às 23:14 | linque da posta | sou todo ouvidos