SUBURBANOS POR EXCLUSÃO DE PARTES

Por muito que existam tentativas débeis (zonas de construção a custos controlados) ou simplesmente desastradas (implantação de bairros sociais em pleno tecido urbano) por parte dos municípios citadinos, a tendência é inevitável: os habitantes menos abastados acabam por se verem obrigados a procurar habitação na periferia, numa espécie de selecção natural sistemática que consolida nas grandes cidades uma elite com alguns direitos acautelados com muito maior acutilância do que a empregue nos dos cidadãos dos subúrbios, por norma entregues a autarquias próprias e, aparentemente, sem a mesma capacidade de intervenção.

 

Dúvidas que existam acerca do pressuposto acima começam por dissipar numa constatação fácil de obter na Grande Lisboa: fale-se em construir (ou mesmo manter em funcionamento) uma fábrica num bairro da capital e aqui d’El Rei. No entanto não é preciso ultrapassar muito os limites de Lisboa para encontrarmos unidade fabris poluentes paredes-meias com urbanizações dos arredores.

Por outro lado, basta inquirir qualquer cidadão se preferiria residir na Rinchoa ou no Parque das Nações para percebermos que só mora nos subúrbios quem não possui o poder de compra necessário para morar na própria cidade onde trabalha e provavelmente até nasceu.

 

Esta realidade, ignóbil no que toca aos milhares de fogos desabitados no centro da cidade por via das questões jurídicas e económicas que estagnam o mercado de arrendamento, suscita, para além da evidente e aparentemente inevitável separação das águas média e média-alta (com tudo o que isso implica, porquanto decorrente do normal funcionamento destas coisas do mercado), a desertificação progressiva das grandes cidades e subsequente sobrepovoamento dos seus subúrbios.

Os resultados desta fé imensa no livre funcionamento da economia já estão à vista em muitas zonas da periferia e só não se fazem sentir com maior intensidade nos bairros citadinos porque manda que pode e pode quem paga ou possui a influência necessária para fazer acontecer o que é preciso no seu quintal.

 

Na minha visão do futuro que esta evolução indicia as grandes cidades transformar-se-ão aos poucos em fortalezas resultantes da proliferação de condomínios fechados com segurança máxima e do nivelamento por cima de todos preços praticados no interior desses bastiões de uma forma de vida que os pelintras só atrapalham, uma espécie de efeito “consumo mínimo obrigatório” que acaba por afastar da cidade os que não o possam suportar.

 

E se é fácil apontar a dedo este tipo de problemas, expostos aos olhos de quem os queira ver, qualquer tipo de solução aventada adquire contornos ideológicos por contrariar ou favorecer pressupostos tão gratos ao binómio esquerda/direita a quem competem as decisões políticas e se anulam reciprocamente pela antítese resultante da aplicação prática das mesmas.

Ou seja, enquanto os decisores de direita rejeitarem qualquer tipo de limitação séria ao livre funcionamento e auto-regulação do mercado não há forma de evitar o fluxo que acima descrevo e enquanto os decisores da esquerda não forem capazes de nivelarem a defesa dos interesses da população menos abastada com a cedência moderada (ponderada também servia) às pressões da especulação imobiliária e outros fenómenos e grupos poderosos vamos assistir à evolução imparável desses anéis por rendimentos, a estratificação garantida, e confirmar que se o país fosse um corpo e a cidade fosse as suas costas, os subúrbios ficariam mais abaixo e seriam, pela lógica do raciocínio acima, o fundo das mesmas. 

publicado por shark às 15:06 | linque da posta | sou todo ouvidos