HISTÓRIA BREVE DE UM GAJO QUE, DIZIAM, FALAVA DEMAIS

Viu que ele sabia do que falava quando o ouviu afirmar que o silêncio, se fosse visível, não passaria de uma sombra negra no meio da escuridão.

Por isso falava tanto, dizia, sempre na esperança de que as palavras pudessem funcionar como tochas, que lograssem clarear todos os recantos onde o silêncio pudesse esconder os seus segredos, o preto do vazio nos espaços em branco onde congeminava os equívocos inevitáveis da interpretação de textos cortados, de trechos censurados que o silêncio aproveitava para substituir por palpites, por meras suposições.

Ele falava dos enganos que o silêncio fabricava, aproveitando a cegueira de quem se deixava tentar pela mudez. Como surdos, no meio de uma caverna onde os morcegos pendurados eram pontos de interrogação disfarçados, vagueavam ignorantes das coisas que não podiam saber porque alguém as não queria dizer e o oportunista aproveitava essas lacunas como sustento para os seus filhotes de dúvida que a confiança abalada paria sem querer.

Ele falava do que ficava por dizer como bordas de um precipício, como armadilhas camufladas para as palavras silenciadas que se transformavam em monstros horrendos quando lhes era impossível converterem-se em som na melodia de uma voz, privadas de esclarecimento, privadas de luz.

Nunca se calava, mesmo sabendo que penava depois com o excesso de iluminação sobre verdades incómodas, os melhores panos manchados pelas nódoas de culpas confessadas e, utopia, pensava que isso lhe garantiria o perdão.

A realidade dizia-lhe que não, transformados os amigos de outrora em desertores depois de o ouvirem falar de amores que consideravam proibidos, relatos que preferiam escondidos nas trevas que o silêncio oferecia, piedoso, salvaguardada a lógica que esclarecia que uma mentira não equivale a uma omissão, sendo feio mentir, e as palavras por dizer nem conheciam a luz do dia e a mentira assim não existia e era-lhes mais fácil viver assim.

Ele falava sem parar, para a maioria eram monólogos cansativos, saturava os ouvidos dos outros com a sua arma sonora contra o silêncio de que se afirmava inimigo mortal. Era para ele uma luta entre o bem e o mal e nunca baixava a guarda, não admitia a existência de silêncios comprometedores nem permitia o embaraço de não haver algo para dizer quando houvesse algures um receptor.

A vida só tinha valor quando contada, desaparecia se silenciada sob um falso pretexto qualquer, o medo ou a vergonha, o segredo que se impunha para preservar a imagem pública de alguém. E ele de imediato a referir, olhar perturbado, o facto de só uma imagem existir, a da pessoa real que não conseguia afinal esconder para sempre o desconforto por tal distorção, o suposto branqueamento por omissão que não passava, quando a verdade a desmascarava, de uma versão hipócrita, apenas menos descarada no seu progressivo escurecer.

 

Um dia ele parou de falar. Morreu.

E no alívio dos que o não conseguiram esconder, o seu inferno interior, ficou esclarecido o quanto ele terá merecido um lugar reservado no céu.

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publicado por shark às 19:58 | linque da posta | sou todo ouvidos