NOUTRO MUNDO

Sentei-me debaixo das arcadas do sumptuoso edifício para enrolar o meu cigarro. Mal acabei de o acender, um vulto passou por detrás e foi encostar-se ao recanto para comer o que não cheguei a perceber se eram bolachas ou batatas fritas, enrolado numa manta fina.

Voltei-me para trás, olhei-o e sorri e disse boa tarde. A sua reacção foi, e não tenho forma de dourar esta pílula, a mesma do cão abandonado e maltratado que era o meu até ao dia em que o recolhi e aos poucos consegui devolver-lhe uma parte da confiança e da sensação de segurança que o início da sua existência lhe roubou.

Sem emitir um som, olhou para mim com uma expressão no olhar que não conseguia disfarçar o medo que justificava a reacção instintiva de afastar do meu alcance, potencial predador, aquele alimento que terá roubado ou alguém lhe ofereceu.

 

Acabei de fumar e antes de seguir olhei de relance para o sem abrigo, um homem pouco mais velho do que eu, enrolado a um canto, mergulhado num pesadelo que não sonhei porque estava lá e vi.

E enquanto seguia o meu caminho apercebi-me da realidade perturbadora da minha dualidade de critérios, quando se tratou de um cão nem hesitei, e do quanto isso me diz do mundo indigno que estamos a construir.

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publicado por shark às 15:02 | linque da posta | sou todo ouvidos