A POSTA QUE A RICO NÃO CHEGO NESTA VIDA DE MERCADOR

Todos temos um estilo próprio. Em parte deriva daquilo que somos e noutra parte tem a ver com o que queremos ser, variando de pessoa para pessoa nas proporções como na motivação.

Avaliar esse estilo, a nossa imagem aos olhos de terceiros, constitui um exercício inquinado à partida pela carga subjectiva que emprestamos sempre à auto-avaliação.

 

Um dos riscos mais evidentes da escolha de determinado estilo é o de abraçarmos não o que nos assenta melhor mas o da nossa preferência e embora o risco de que falo possa ser para uns algo de determinante na construção da sua auto-estima e para outros apenas uma questão de pormenor uma escolha menos acertada pode acarretar precisamente o efeito oposto ao que ambicionamos.

Um caso típico, e particularmente enervante para mim, é o do refinado labrego. Ou vice-versa.

Este estereótipo é dos mais populares num país de pavões onde a imagem é a pessoa e tudo o resto só serve para atrapalhar as contas de uma avaliação sumária, em boa medida feita logo à partida, no primeiro contacto visual que, de resto, é um dos filtros mais em voga para medir a importância, a relevância, a consistência de alguém.

 

O labrego refinado pode ser aquele gajo que investe fortunas na aparência e visto ao longe conquista de imediato uma reputação de homem abastado ou, no mínimo, de doutor. Depois aproxima-se, abre a boca para libertar a sonoridade intensa da sua própria convicção no tal pressuposto que os outros aceitam e é como destapar uma magnífica terrina de cristal da Boémia recheada de comida estragada há vários dias.

O volume é alto e a pose é elevadíssima. Esbracejam, fixam o olhar no horizonte como se vissem mais além ainda e falam. Falam sempre demais.

Aliás, esse parece ser um dos segredos do sucesso do refinado labrego comum: o chorrilho é tão imparável que os outros, mesmo percebendo-lhe a falta de formação pessoal, concentram-se na sua certeza no cagar e desculpam qualquer coisinha com o relance ao seu Rolex ou à viatura magnífica que o fulano estacionou. A partir daí a popularidade é garantida e por isso, não raras vezes, estamos perante um bem sucedido empresário ou um ambicioso vendedor.

 

O lugar cativo no camarote do estádio, a casa de praia na Quarteira ou em Lagos (alguns destes exemplares já toparam que não podem ser demasiado óbvios), a última versão da Audi ou da BMW, a multiplicação dos sinais exteriores que funcionam como uma intensa camada de verniz sob o qual até a caca de cão consegue brilhar.

Esses são os cartões de visita habituais no estilo que vos tento definir, outros acabam por surgir em função da maior proximidade que estejamos dispostos a permitir com esses espécimes que, por norma, são um bocado abusadores da confiança que lhes dão, precisamente porque se acham superiores num mundo onde as pessoas se avaliam assim.

 

Contudo, e garanto-vos que em momento algum questionei as minhas próprias escolhas nessa matéria por ter a plena consciência de que o meu estilo padecerá sempre de mácula e de ridículo aos olhos de alguém, às vezes é requerida uma imensa dose de pachorra para aturar papo de galito de Barcelos armado em capão e mesmo quando  é absolutamente necessária a intervenção de um desses cromos no nosso caminho dá-nos ganas de lhe esburacar a película, de escarafunchar o paleio de vencedor até começar a verter o visco pelas lacunas e redescobrir o gajo simples e parolo por debaixo da capa de super-herói, o tal que coçava os tomates por instinto nas ruas da aldeia ou do bairro pobre e acaba sem querer por acudir às claras a qualquer tipo de comichão ou falava das vacas que comia, e eram todas as que lhe permitiam a proeza e ainda mais as que se negavam mas faz de conta que não, com o mesmo respeito e consideração que dedicam ao hamburguer que lhes besunta as beiças enquanto fazem o seu charme nojento para cima das infelizes que por algum azar caíram sob a alçada do seu poder enquanto contactos influentes ou mesmo patrões.

 

E eu perdi algures a capacidade de cruzar os braços e fazer de conta perante indivíduos assim.

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publicado por shark às 22:41 | linque da posta | sou todo ouvidos