A POSTA NAS PRESTAÇÕES EM PORTUGUÊS SUAVE

A conta da água, da luz, mais a renda para o senhorio ou para um banco qualquer. A mensalidade para o condomínio, outra para a tv cabo mais as outras comunicações associadas, não esquecendo as que chamamos de prestações, suaves quando isoladas mas que depressa percebemos pesadas quando lhes somamos outras parcelas dos compromissos que acumulamos em pedacinhos como os da vida que estilhaçamos sob a pressão que nos é imposta nesta corrida em que somos voluntários recrutados.

 

A comida indispensável, mais a roupa que se estragou ou deixa de servir, a moda a impor uma obsolescência prematura, já ninguém usa aquela cor escura que foi a principal tendência na penúltima colecção.

A fachada sempre cuidada para os olhos que também comem e alimentam nos bastidores o filtro daquilo que somos que nos converte naquilo que valemos na medida do que conseguirmos parecer.

 

Mais as contas imprevistas da saúde que pode faltar e os outros pequenos incidentes de percurso que nos acrescentam débitos nos cartões que oferecem créditos com juros insuportáveis que se revelam implacáveis a dias certos de cada mês quando se apresenta a factura dos excessos que a aritmética não perdoa na sua franqueza exponencial, o endividamento em espiral ascendente enquanto descemos sem dar por isso aos infernos tangíveis das cobranças difíceis que se acotovelam no horizonte das preocupações de quem não foi ensinado a dever a estranhos cujas missões ingratas transformam aos poucos em pedras iguais às que sustentam as sedes portentosas das instituições que representam, vazios por dentro porque precisam de se defender das agressões do exterior que eles próprios protagonizam na sua pele de juízes de valor dos que tropeçam em prestações suaves agigantadas pelas coimas previstas por incumprimento nas letrinhas pequenas de um contrato que assinamos em balcões ou secretárias adornadas por pessoas que nessa altura muito sorriem para nós e agora se empoleiram na mó de cima de uma condição que defendem com determinação férrea, quase feroz.

 

A insistência nos mesmos erros daqueles outros de que ouvimos falar no café e confirmamos nas histórias que nos revelam nas peças lamechas dos telejornais, quase à balda pelo lado da vida que não nos permite distracções ou leviandades que se podem revelar fatais para o falso dado adquirido da pertença a uma realidade que depende da nossa capacidade para a merecer, não apenas a trabalhar (enquanto nos deixam) mas igualmente na gestão do que gostávamos de ter e não podemos mas nos viabilizam como milagres a longo prazo, pequenas migalhas que todas somadas acabam por nos comer o pão.

Depois cedemos perante a aflição quando percebemos o tamanho do buraco e não conseguimos agarrar-nos à sua borda por mais que tentemos esticar os braços ou o dinheiro que lhe deitamos em vão para tapar aquela sepultura na qual somos coveiros em causa própria do cadáver adiado da nossa despromoção que no limite se assume uma exclusão social.

 

Apontados a dedo como irresponsáveis, descontrolados, protótipos dos falhados que ninguém respeita porque suscitam medos instintivos dos que apontam e desdenham mas se adivinham na mesma linha de montagem onde passa o comboio que os pode trucidar, abdicamos se necessário do orgulho para podermos disfarçar essa condição de vítimas do sistema que sustentamos no empenho com que o alimentamos como a um cão capaz de morder o próprio dono quando este lhe estende a mão. Obrigados a fazê-lo para encaixarmos a qualquer preço no estilo de vida que aceitamos tacitamente como o nosso padrão.

publicado por shark às 11:48 | linque da posta | sou todo ouvidos