MONÓLOGO DA BARBATANA

É perturbadora a forma como nos abala um conflito interior entre aquilo que queremos e aquilo que devemos fazer, sempre que estão em causa as coisas (e as pessoas, acima de tudo as pessoas) que mais mexem connosco.

Pouca volta há a dar a um assunto no qual o conflito de interesses é disputado em clima de guerra civil pessoal, precisamente porque se trata de um dilema que nos enfraquece a própria capacidade de decisão, com a cabeça e o coração a digladiarem-se em torno de razões e de emoções que partilham naquilo que é a gestão corrente das pessoas que nos ambicionamos.

Pouco mais nos resta, em tais circunstâncias, do que encontrar um peso relativo para as opções em disputa e respectivas consequências, nomeadamente quando envolvem ou possam afectar terceiros, sobretudo quando esses terceiros são das poucas pessoas a quem reconhecemos um papel decisivo nas nossas vidas e nos impomos a salvaguarda dos seus interesses, ainda que em detrimento dos nossos.

 

O meu perfil não ajuda nessas questões. Antes agrava, sobrevalorizando-o, qualquer problema que envolva os contornos que refiro acima.

A gaita é que quando damos rédea solta às emoções e enchemos o peito de vontade de lutar por elas, contra o mundo inteiro se necessário, essa liberdade (libertinagem?) emocional confere uma força desmesurada aos argumentos em abono do impulso, do instinto que nos trai quando nos vemos obrigados a ter em conta a realidade dos factos na sua componente racional, por exemplo no que concerne à coerência perante princípios.

E é aí que colidem aquilo que sentimos certo e o que percebemos necessário ser feito, ainda que em sentido oposto ao que o coração nos diz, muitas vezes defendendo duas causas em paralelo e aumentando assim a confusão, os gatos enfiados no saco da nossa capacidade decisória.

 

Claro que uma pessoa equilibrada aprende a viver com essas coisas inerentes à nossa condição de criaturas imperfeitas que precisam interagir para que a vida aconteça como deve ser, muitas vezes não como a queremos. Para uma dessas pessoas, este tipo de desabafo só pode soar como uma calimerice, um choradinho de quem é fraco e precisa angariar palmadinhas nas costas quando enfrenta algum tipo de aflição.

Puro engano, embora isto seja fácil de dizer para mim nesta pele de juiz em causa própria que tem plena consciência da irrelevância desse tipo de opinião ou de embirração ou seja o que for que marca o território das nossas diferenças e das divergências que elas acarretam.

 

Esta é uma forma como outra qualquer de pensarmos com os nossos botões, de expurgarmos as emoções excessivas que possam toldar o bom senso imprescindível para vermos com clareza todos os vértices de cada questão com que nos confrontamos, mais urgente ainda quando estão em causa decisões que não podem ser confiadas à leviandade do primeiro impulso, esse ganda maluko que, por muito que nos torne pessoas giras de observar nas suas existências conturbadas mas intensas, acaba por estar na origem das maiores imbecilidades de que nos admitimos responsáveis e pode até constituir um factor determinante ao longo de toda uma vida, quando por exemplo o arrependimento pode degenerar em remorso ou coisa parecida.

 

E naquela cena do sentido da vida ficamos conversados assim.

publicado por shark às 12:21 | linque da posta | sou todo ouvidos