A POSTA NA APTIDÃO NATURAL PARA A COISA

Existem pessoas que se regem por um conjunto de valores ou princípios que abraçam como seus, seja porque tais valores encaixam na sua forma de ver e de estar no mundo ou porque a sua experiência de vida enfatizou determinada regra universal do vasto conjunto ao dispor de quem ainda liga alguma importância a estas coisas.

Existem também os que se deixam conduzir pelas emoções, eliminando da equação os tais valores que possam condicionar de alguma forma o seu comportamento, as suas escolhas e/ou a perspectiva do que são e do que os rodeia, acabando por interagir em função de impulsos que não questionam por a eles não aplicarem os filtros convencionais.

E depois ainda existem os que fundem ambos.

São esses, obrigados à luta permanente pela coexistência pacífica entre duas forças que muitas vezes se repelem, os mais propensos a dilemas e à inerente angústia que, para além de constituir um óbice para a paz de espírito da pessoa, acaba por estar na origem de muitas manifestações de uma forma de loucura mansa, quase indetectável, mas que se evidencia na proporção da constante zaragata interior que dá cabo da imagem de qualquer um/a por constituir uma ameaça ou pelo menos um sério obstáculo à credibilidade dos visados, nomeadamente pelo seu efeito corrosivo na lógica e até na coerência.

 

Ou seja, se alguém se despe das emoções (até onde tal nudez é possível) e decide reger a sua vida em função de uma espécie de fio condutor normativo, os valores que pouco valem nestes dias, consegue reduzir ao mínimo o esforço de apreciação dos desafios que lhe são colocados pelo facto de bastar um encaixe de cada acção/reacção na sua legislação interior para sentir cada decisão plenamente justificada, nomeadamente nas eventuais consequências das opções que se possam revelar desastradas.

Da mesma forma, os que abdicam dos valores e navegam pelo quotidiano em função de onde os ventos sopram, por instinto e sem outras reservas que não (quando calha) as que o mínimo de bom senso recomenda, não requerem mais explicações para o seu impacto nos outros ou destes em si do que as fornecidas pelo binómio sorte/azar que deriva de uma gestão à posteriori com base no teve mesmo que ser assim e paciência.

 

Contudo, paciência é afinal o maior requisito para lidar com o terceiro grupo que acima identifico.

Os que tentam conciliar valores (convencionados ou de sua lavra) e emoções (tantas vezes contraditórias relativamente às regras impostas) são gente perturbada, confusa, inconstante, são reféns de um conjunto de nós cegos apertados pela força das circunstâncias em combinação com o poder destrutivo que algumas situações extremas pode exercer em quem possua e pretenda preservar aquilo a que, por regra, chamamos uma consciência.

É aflitivo perceber o conflito interior que transparece de pessoas assim, encurraladas entre a análise apriorística com base naquilo que deve ser (os valores) e o impulso poderoso da reacção primária (as emoções) que faz das normas tábua rasa e transforma a mente da pessoa numa máquina de pinball (os saudosos flippers) completamente descontrolada na hora das decisões difíceis e, acima de tudo, na ressaca dos potenciais trambolhões.

São pessoas cujos princípios, neste meio termo invariavelmente conflituoso em que se posicionam, podem (ou pelo menos parecem) implicar o fim da sua sanidade mental plena.

 

Encontro com frequência uma relação directa entre este último tipo de pessoa e os autores dos melhores blogues que até hoje descobri.

publicado por shark às 11:18 | linque da posta | sou todo ouvidos