DE LA PALISSE (OU PALICE, SE VOS SOAR MELHOR)

E no fundo a felicidade é mesmo um estado de espírito e nós só complicamos porque sim, porque é essa a nossa natureza, esse impulso idiota que até pode nascer como reacção primária à constatação de que só estamos a atrapalhar-lhe o caminho, a essa felicidade genuína que como qualquer estado de espírito só não faz mais porque escolhemos mal o centro nevrálgico das nossas atenções.

 

Dito assim parece simples, eu sei, e até compreendo que o cepticismo tome conta de cada um de vós perante este discurso tão na boa que até a felicidade quase parece outra coisa que não a utopia como a entendemos tendo em conta a forma como vivemos no avesso daquilo que mais a beneficiaria.

Mas é, bem vistas as coisas, mesmo assim que a coisa se faz. Simples, sem merdas, alheia às contrariedades de merda que inventamos para a relegar para segundo plano quando afinal bastam pequenos instantes de lucidez para ela se abrir toda ao nosso olhar.

 

Sim, logo ali, na mente que nos diz estarmos livres dos impedimentos a sério, tão lógico, nenhuma doença impeditiva e nenhuma tragédia terrível para servir de pretexto para escoarmos o tempo como carpideiras justificadas nesse contexto mas absurdas, intoleráveis, quando está em causa apenas a nossa capacidade de abrir os olhos à realidade que nos rodeia com tudo aquilo que tem para nos oferecer quando temos a humildade suficiente para não cedermos à tentação de abraçarmos a ambição desmedida como um caminho a tomar.

Mais e melhor, sempre amanhã ou depois, e ela ali, a felicidade, sorridente, complacente, a observar a nossa incapacidade de olhar para ela como único objectivo possível para uma existência digna desse nome, soberana na verdade que negamos com os pretextos que inventamos para nos azucrinar as paciências e nos esgotar as vontades de lutar por aquilo que intuímos estar mesmo ali, ao alcance da mão. Momentos em que nos entregamos sem reservas ao prazer, qualquer que seja, cientes da nossa condição perecível de simples mortais.

 

A verdade translúcida que baila trocista diante da nossa consciência e até do nosso olhar apenas aguarda esse clique na nossa cabeça que nos diz que amanhã talvez não aconteça e nesse caso tudo é hoje valioso para usufruir, com um sorriso, com uma alegria a que temos direito e a simples comparação com a realidade de alguns dos outros transforma numa obrigação.

Tão simples, afinal, aos gritos diante da nossa atenção, a felicidade tangível, a vontade inadiável de querer mais apenas no que concerne ao tempo que sobra para dela beneficiar.

 

Como a bofetada nas ventas que tantas vezes merecemos apanhar.

publicado por shark às 16:53 | linque da posta | sou todo ouvidos