A POSTA ACREDITADA

Há uma data de coisas em que eu gostava de acreditar, a sério.

Gostava de acreditar em Deus, logo à partida, porque a partir dessa crença ia abrir-se um vasto conjunto de outras coisas em que eu iria poder acreditar, como os milagres (o Euromilhões, esse milagre tão divinal…) e quase todas as hipotéticas realidades no domínio do sobrenatural.

Também gostava de acreditar em extraterrestres, não propriamente bactérias venusianas mas criaturas em condições, inteligentes e de preferência sem dedo leve no gatilho dos seus pistolões de raios xpto que transformam de repente uma pessoa em pó das estrelas e depois só daí a uns milhões de anos é que voltamos a reencarnar.

Nisso eu também gostava de acreditar, desde que me garantissem que não reencarnava num cacto ou num daqueles escaravelhos que passam a vida a fazer bolinhas de trampa e a rolá-las para todo o lado apenas porque a natureza assim o ditou e isso é quase o mesmo que dizer porque sim.

 

Acreditar na robustez do sistema democrático para enfrentar tantas e tão poderosas ameaças que o tempo e a fraqueza humana conceberam também me dava jeito. O medo de que a História se repita é fácil de acreditar e uma pessoa nem consegue imaginar o resultado de um colapso da democracia à mercê de tanta convulsão potencial mais as que já sentimos na pele depois de desencantados com a ausência de líderes fortes e carismáticos, se possível um nadinha consensuais.

Também gostava de acreditar nos outros, quase tanto como gostaria que acreditassem em mim. A capacidade de ultrapassar a desconfiança deveria ser um equipamento de série nosso neste tempo em que as pequenas traições se multiplicam a um ponto em que as pessoas já não enfiam facas nas costas umas das outras mas apenas canivetes, imensos, dos pequenos. E eu também não gostava de reencarnar num porco-espinho, tenho que admitir.

 

Contudo, no meio desta minha luta interior pela busca de explicações tão simples como a do sentido da vida, esta mistela entre o raciocínio precariamente optimista e a experiência de vida em muitos aspectos surrealista não produz um resultado coerente com a vontade intrínseca da descoberta de qualquer tipo de fé. Pode até confundir a pessoa ao longo do caminho, ao ponto de acreditarmos em coisas que muitos afirmam impossíveis.

 

Eu até calhou acreditar no amor e sempre que afirmo isso perante alguém obtenho em troca duas gargalhadas, a de quem me ouve e a do meu demónio interno de plantão.

É certo que são gargalhadas tímidas, amarelas, nervosas.

Mas o que conta é a intenção.

publicado por shark às 12:12 | linque da posta | sou todo ouvidos