E COMO TEM AS COSTAS LARGAS O PSEUDO FARAÓ ESFINGE QUE NÃO PERCEBE..

Não sei se é mesmo aquele tique da alma esquerdalha que inspira este romantismo sistemático perante as sublevações populares espontâneas contra regimes pseudo-democráticos ou nem pouco mais ou menos, tão diferente da reacção das gentes de direita a esses fenómenos tão próximos do caos e ao quais só aderem por motivo de força maior, nomeadamente quando estão em causa os interesses de escolas privadas, de embriões ou de qualquer tipo de contestação ao actual Governo.

O que sei é que vejo povos como o egípcio, o tunisino ou o iraniano nas ruas e apaixono-me à primeira vista pela sua causa que, sendo a do povo e não a dos poderes que o oprimem, adopto sempre como minha.

 

Preocupa-me sobremaneira esta fase perigosa da contestação ao regime de Mubarak, sobretudo pela consciência de que os ocidentais ficam sempre reféns das suas ligações perigosas, porquanto necessárias num contexto mais amplo, com tiranetes (obrigado, candidato Coelho) quando estes perdem o controlo da populaça.

É evidente que os norte-americanos terão que engolir em seco quando vêem os seus F-16 sobrevoarem multidões civis indefesas para, no mínimo, as intimidarem. Nem que seja pelo que isso representa de antítese à democracia que, como antes a religião serviu as potências europeias, lhes serve de pretexto para os seus casamentos de conveniência.

 

Por outro lado, o espectro do fundamentalismo islâmico sempre presente naquelas paragens (mas pouco credível como papão para um país como o Egipto, marcadamente mais vocacionado para o laicismo) abre as portas a mais uma possível ingerência desastrada dos israelitas que se agarram de forma tenaz ao seu pretexto estafado para obterem o perdão internacional para os abusos que vão cometendo de forma impune. E há muitas maneiras de interferir num conflito interno que assume as proporções do que está a acontecer agora no país que temos tido por aliado na contagem de espingardas daquela região.

 

Por tudo isto, e porque ninguém pode questionar as motivações legítimas de um povo a quem os poderes devem servir quando este os contesta, temo o pior desfecho para esta inspiradora coragem dos egípcios capazes de abrirem o peito às balas sem possuírem sequer um líder carismático para orientar a sua revolução.

 

E sinto-me ainda mais agradecido por viver num país onde a democracia ainda tem voz grossa o suficiente para que o poder não precise de impor à bruta a sua autoridade ao ponto de me obrigar a marchar contra os seus canhões.

publicado por shark às 18:49 | linque da posta | sou todo ouvidos