A POSTA NO FIM DA MACACADA

Depois de dias a fio a levar com temas tão maçadores e, a avaliar pelos números da abstenção, perfeitamente dispensáveis como política e eleições e essas chatices todas, achei que deveria optar por um tema mais profundo para debitar umas larachas.

E como ainda não tive pedidos para me debruçar sobre a Fossa das Marianas decidi ir mais além e empoleirar-me nessa importante questão que é da vida para lá da morte. Só de raspão, claro...

 

Bom, o próprio conceito de vida para lá da morte soa disparatado se optarmos por tradução literal e isenta de religiosidade. Bem vistas as coisas, teríamos um ciclo vida-morte-vida outra vez e é difícil de aceitar a ideia de que um ente superior cria pessoas e mata-as para depois as fazer viver outra vez, ainda que sob outra forma e/ou noutra dimensão da existência.

É que isto da morte é uma gaita, pois atemoriza a malta toda (mesmo a que acredita na tal ideia de que depois do fim acontece um princípio num sítio ainda melhor e atafulhado de virgens – nenhum paraíso é perfeito, enfim…) e as pessoas não gostam nada de viver com esse tipo de canga às costas.

 

Na verdade, isto do medo da morte (uma consequência lógica da consciência de que existe, acontece e não é só aos outros) é um dos preços a pagar por nos termos posto em bicos de pés diante dos nossos irmãos chimpanzés, uma mazela própria da evolução da espécie que por vezes enfrenta os caminhos da existência com o mesmo sentido de orientação de uma barata tonta mas sem a resistência dessa prima afastada.

Para os restantes símios a morte pouco diz, embora façam o possível por evitá-la. No fundo gozam enquanto podem e não se fiam em virgem alguma, ao contrário de nós, os inteligentes da família, que mesmo perante a hipótese realista de sermos tão ressuscitáveis como uma sardanisca e de ser improvável transitarmos para um paraíso acabamos por desperdiçar o tempo a recriar uns para os outros o verdadeiro inferno e sempre com a displicência de quem se julga, no mínimo, eterno.

 

Essa mácula na superior capacidade intelectual que nos distingue do resto do macacal pode ilustrar-se, por exemplo, com aquele cliché ancião do ai se eu pudesse voltar atrás. Não se pode, é outro dos dramas a abordar um destes dias na ressaca da provável vitória do Passos Coelho no próximo recorde de baixa afluência às urnas, porque já conseguimos clonar ovelhas mas ainda não sabemos como recuar no tempo para podermos clonar as respectivas bisavós.

E apesar de sucessivas gerações a chorarem os atrás a que voltariam para fazer tudo diferente, os que ainda lá estão, no seu ponto do percurso, olham adiante e agem como se fosse indiferente estarem hoje em Alcochete e amanhã numa nuvem a tocar harpa para matarem o tempo que alegadamente não mais se esgotará. Ou seja, preparam o caminho para repetirem o choradinho dos mais velhos quanto ao desconforto de espreitar uma vida pelo retrovisor.

 

Ou seja, isto só para concluir depressa pois detesto não ter sempre a resposta ou a solução na ponta da língua – embora aprecie mantê-la atarefada, a existência da vida para além da morte não aquece nem arrefece mesmo que venha a ser provada ou então a fé não passa de um embuste para manter a malta entretida. E mesmo para os que acreditam no fim absoluto excepto talvez numa vertente ecológica da reciclagem natural que nos torna em adubo de primeira para couves lombardas, a avaliar pela amostra pouco os distingue entre si na atitude e na capacidade de desbundar isto tudo com a alegria que os nossos antepassados distantes encaravam o milagre (não é fé, é fezada) que é viver cada dia.

 

Não faças de conta que não é nada contigo, ó tu que lês: há quanto tempo não catas uns piolhos ou saltas de árvore em árvore pendurado/a numa liana ou dás uma queca só porque te apetece e sem complicações e constrangimentos de toda a ordem enquanto és capaz, seguindo o bom exemplo de qualquer chimpanzé?

 

Acreditas que vais poder fazê-lo mais tarde ou na tal outra vida, não é?

publicado por shark às 17:12 | linque da posta | sou todo ouvidos