EU NÃO SEI SE OS MORTOS CONSEGUEM LER

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Pegando ainda na posta da minha sócia, que muito apreciei, e porque o tema me fascina, decidi gastar um pouco do nosso tempo a abordar essa complicada questão da felicidade, tal como a entendo, e em que medida é nossa a escolha nessa matéria.
Existe um ponto no qual (em teoria) eu e a Mar estamos de acordo: isto (a vida) esgota-se na pirisga e ainda temos os pianos de cauda imprevistos para nos darem cabo dos planos para os amanhãs que nada nos garante nascerem com o nosso testemunho. Daí, é obrigatório esmifrar cada oportunidade que nos surja e que se enquadre dentro do que definimos como limites da nossa gulodice pelo prazer que a vida nos dá.
E é decisivo atribuirmos o devido valor às coisas boas e relativizarmos tudo o que nos perturba hoje pelo peso que (não) terá amanhã.
Ou seja, temos que nos chatear menos e aproveitar muito mais. Temos que ser gratos pela existência livre de impedimentos a sério, quando esta se proporciona.

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Contudo, a Mar é um nadinha mais pessimista do que eu. Ela não acredita nas utopias, afirma-se realista e aceita o que a vida lhe der (o que considera ser possível a vida dar-lhe, aliás). Eu quero mais. E quando não tenho o que quero acredito que é possível obter. E só desisto quando não há mesmo mais nada a fazer, o que, quando o objectivo vale a pena, implica um porradão de desgostos e de desilusões em catadupa.
Mas também implica a esperança ao longo do caminho e eu, agnóstico, considero-me um homem com muita fé.

A felicidade não é eterna, não é permanente e é um conceito tão vago que dificilmente terá uma interpretação comum para dois seres humanos. Temos formas diferentes de sentir e atribuímos um significado distinto às incidências do percurso. Variamos na intensidade, na ambição, na reacção às cicatrizes que os momentos maus nos provocam. E ainda variamos no feitio, na disponibilidade para sorrir, numa data de merdas que transformam qualquer arquétipo de perfeição numa salada (muito) mista.
A felicidade pode ser instantânea e durar apenas alguns segundos ou uma vida inteira (que pode ser curta). E será sempre uma felicidade condicionada à nossa forma de a experimentar.
Por isso a fortuna não basta a alguns e a miséria não retira a alegria a muitos mais.

Certo é que ser feliz implica (até prova cabal em contrário) estar vivo e capaz de usufruir das imensas benesses ao dispor. Mas por capaz entendo ter condições físicas e anímicas que nos permitem atacar as melhores fatias do bolo. E sonhar com a forma de melhorar a receita, para as sobremesas saberem cada vez melhor. Não é utópico para mim forçar a barra da felicidade, mesmo quando reúno no meu perímetro as condições mínimas para satisfazer os requisitos “universais” do tal conceito. Demais é um termo que não se conjuga com a felicidade como a entendo.
Porque uma parte dessa euforia que até pode derivar de um conjunto de pressupostos ilusórios, subjectivos, reside precisamente no estrebuchar sem sossego para alcançar o próximo patamar da escadaria, o nível seguinte deste jogo onde as vidas não se podem comprar quando se extinguem, como a Mar salienta na sua posta.

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A piada disto tudo, na óptica de um idealista, consiste em enfrentar esses desafios que os outros consideram impossíveis de abraçar, surrealistas, patéticos até. Um gajo espalha-se e levanta-se logo a seguir e reformula a abordagem e espalha-se outra vez e acumula memórias, experiências, concretiza fantasias e finta a morte com uma vida a valer.
Depois do fim logo se verá como se dá a volta à cena, se existirem outros palcos depois do pano cair. Aí, ninguém nos julgará pelo que fizemos ou pelo que deixámos por fazer e duvido que quaisquer julgamentos nos cheguem aos ouvidos ou nos dêem comichões no espírito depois de nos soterrarem sob uma lápide qualquer.

É esse o principal fundamento do primado da desbunda, esse direito inalienável dos que a têm como alternativa por entre desgraças como o nascer e o morrer e as partidas foleiras que uma vida nos pode pregar.
Perseguir a utopia, acreditar em ideais “impossíveis” e dar cabo do coiro a contrariar os derrotismos consensuais é, a meu ver, uma receita excelente para dar a volta à pasmaceira que os dias normais nos instalam. Qualquer frustração inerente ao fracasso de um delírio, de uma ambição desmedida ou de uma simples irrequietude que nos empurra para um nível tolerável de extravagância, de loucura (mais ou menos) controlada, constitui um preço que se justifica pagar. É que nada nos tira a pica que dá tentar ir um nadinha mais além, mesmo arriscando uma decepção.

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Decepcionante deve ser um gajo ter adiado a felicidade para mais tarde, por ser “impossível” nessa altura, e ver-se às tantas a duzentos à hora em linha recta para um candeeiro ou a definhar aos poucos numa cama de hospital.
A vida representa para mim nada mais do que um lapso de tempo durante o qual posso optar entre querer e fazer já, mesmo que não seja comummente aceite como normal (e aceitar as eventuais consequências), ou deixar para depois, para uma fase da existência em que (alegadamente) os factos permitem outro tipo de leitura, mais prudente e avisada.

Pode ser que sim, se tudo correr pelo melhor. Mas também pode o destino trocar-me as voltas.

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E eu não sei se os mortos conseguem ler.
publicado por shark às 21:04 | linque da posta | sou todo ouvidos