Eternidade e mais um dia

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Quase desaprendemos o ofício da escrita alegre. Na corrida das manhãs de olhos pesados, duches rápidos, mochilas, lancheiras, sacos de ginática, raispartaaescolamaisosistema que nos transforma e aos putos em animais de carga, nas filas nervosas de minutos a escoar para o atraso da praxe, dedos tamborilantes no volante, mais os bons dias e a última hora dos recentes atentados num país algures lá longe...ainda.
E um dia destes, a morte.
Na chegada malhumorada ao local onde passamos metade das horas dos dias de vida que vamos queimando um a um, preciso de um café forte oxalá o chefe nem se lembre que existo, e o som do fax, telefone, a reunião às 10, 11 mais a das 14.30, por entre a cusquice sobre o último caso com a colega nova, que se diz que anda a passar por baixo da chefia intermédia e lá por dentro o bichinho a roer que a gaja é podre de boa, onde diabo irei hoje variar da fast food comida a correr, agora é que vai ser, uma salada, inscrevo-me no ginásio da esquina, vão ver, fico mil vezes melhor que ela, não passa de hoje, e as novidades da estação a cair perfeitas no manequim estilizado e os standes de automóveis, joalherias, sapatos, tentações mais a putaquepariu a conta-ordenado no limite e ainda falta uma semana.
E depois, a morte.
Quase esquecemos a escrita da pele, a que sabe o amor que um dia conhecemos, o marulhar de emoções que desperta o tom de voz que nos sussura ao ouvido, como és importante para mim. Apressados que estamos nos compromissos fiscais que nos obrigam, na prestação da luz, água, telefone, internet, tv que nos sufoca, no crédito à habitação que nos consome.
E a morte ali, ao virar da esquina.
Deprimimo-nos, desgastamo-nos, desperdiçamo-nos e choramos. Ou rimos, alucinamos e quase perdemos o tino, invejamos, odiamos, maldizemos, criticamos, não confiamos. Esgotamo-nos.

E, de repente, a morte. Não a nossa, a de outros, trágica, chocante porque inesperada, porque é fim e isso basta já que o simples conceito de fim é triste.

E é aí que nos apetece a vida e o infinito, mexer na terra com dedos de criança, embarcar no azul das sensações, construir um reino do outro lado do espelho, onde as ruas são feitas de bolacha e as casas chupa-chupas gigantes.
É nessa altura que queremos esticar o prazo que trazemos carimbado à nascença e pensar que a eternidade se pode guardar numa caixinha ali ao lado do coração.

Pomos o contador a zeros e esperamos redimir-nos, recomeçando a viver.

Mar
publicado por shark às 19:56 | linque da posta | sou todo ouvidos