EM CONTRA-CICLO

Esqueci-me completamente dos votos de ano novo, a sério. Aliás, nem uma análise do ano que findou me deu para fazer, negligente me confesso ao ponto de quase me ter passado ao lado a euforia obrigatória (se não quisermos passar por uns grunhos) dessa transição mágica do calendário que constitui pretexto para uma espécie de alucinação colectiva que sinceramente não tenho forma lógica de explicar.

 

Existem tradições absolutamente intocáveis na passagem de ano, mais até do que a tal alegria imposta e que devemos forçar-nos por exibir. Entre elas destaco o balanço do ano passado e os votos e/ou as previsões para o ano futuro. Ou seja, é suposto conseguirmos passar uma esponja por toda a merda que fizemos ou nos aconteceu enquanto, em simultâneo, delineamos uma espécie de plano de actividades para o período de 365 dias que nos cumpre enfrentar a seguir.

É isso que parece competir a quem é do tempo em que a festa se fazia nas janelas com as tampas dos tachos para manter acordado o vizinho bêbedo do lado e, ouvi dizer, para afugentar os espíritos maus que nos infernizam a existência ao longo de um ano normal.

 

A malta desdobra-se em esforços para garantir um local e companhia para esse maravilhoso dia de catarse em combinação com a invocação dos melhores auspícios mais a reunião das promessas por fazer mais as que ficaram por cumprir nos últimos anos, sempre com uma expressão de felicidade (ainda que induzida por excessos líquidos que a época parece tolerar) que deixe bem clara a alegria interior que a sociedade decretou. Um pouco como o espírito do Natal mas seguramente mais imbecil.

 

Não me interpretem mal, eu gosto de me sentir feliz, tal como aprecio imenso ficar com a noção de que qualquer espaço de tempo foi bem gasto por mim. Da mesma forma podem contar com a minha imensa vontade de fazer (este ano é que é) tudo aquilo de que me acreditam capaz ao ponto de eu próprio me iludir nessa intenção.

 

Mas cada vez mais me é complicado produzir esse resultado em resposta a uma convenção.

publicado por shark às 16:43 | linque da posta | sou todo ouvidos