A POSTA NATALÍCIA

Sou agnóstico, uma opção que já me valeu ser baptizado de cobarde intelectual por um padre.

Realmente ele no fundo tem razão, se tivermos em conta que se trata da posição intelectualmente mais confortável. Difícil é encaixar a fé numa qualquer lógica racional e há quem o consiga, da mesma forma que existem os que aparentemente conseguem destruir na sua mente todos os pressupostos, todas as dúvidas e incertezas que lhes possam abalar uma convicção de tal forma firme que lhes permite assumirem-se ateus.

 

Os agnósticos ficam a meio do caminho neste diferendo. Nem sim nem sopas. Assistimos na bancada aos intensos debates que caracterizam os pólos opostos da questão, ambos cheios de argumentos para fundamentarem a sua razão, e aguardamos um sinal divino que nos ilumine ou pela confirmação científica inquestionável da inexistência de algo mais do que aquilo que somos e do que somos capazes de conseguir ao longo do tempo que Deus ou o acaso nos derem.

Claro que se num dia normal não é coisa que nos faça perder o sono, quando chega o Natal a coisa adensa em termos de desconforto neste sofá do cepticismo moderado que nos obriga a escolher uma posição se quisermos salvaguardar alguma coerência.

 

Se uma pessoa não acredita em Deus pode soar tolice festejar o Natal, uma efeméride religiosa por quanto a coca-cola se esforce por conferir uma existência de facto ao seu ícone ancião.

Porém, é fácil a um agnóstico assumir a existência de um tipo absolutamente notável chamado Jesus e que impressionou de tal forma a malta do seu tempo que ainda celebramos o seu aniversário mais de dois mil anos depois do nascimento acontecer.

Isto resolve o problema da celebração, havendo um bom pretexto não há porque recusá-la.

Claro que isto elimina da equação a missa do Galo e outros rituais que a tradição inclui, mas uma pessoa consegue ser feliz só com base no bacalhau, na troca de prendas, no presépio e na árvore de Natal.

 

E no fundo é esta capacidade de sermos felizes com aquilo que temos que distingue a forma como vivemos cada momento e sobretudo os momentos que preferimos especiais. Ou seja, é possível a um agnóstico viver com tanta ou mais intensidade a magia do Natal, a religiosa como a pagã, como qualquer pessoa que celebre cheia de fé o seu profeta ou, pelo contrário, abrace a coisa com a distância de quem não acredita em nada que não possa ver ou, de preferência, apalpar.

 

Eu vivo a magia do Natal no sorriso da marafilha e no brilho do seu olhar.

E por ela, pela gravação das suas memórias do que esta época do ano representa, como por mim, que não dispenso qualquer das vertentes do meu papel enquanto pai e absorvo com sofreguidão toda a felicidade que lhe consigo proporcionar, não concebo nem admito qualquer hipótese que a possa privar das emoções que o Natal parece concebido para enfatizar.

 

E nesse contexto, como noutros que vão sendo criados para nos lembrarmos das coisas verdadeiramente importantes da vida, mantenho uma fé muito minha e que não depende de ícones pagãos ou de rituais de cariz religioso para se sustentar.

Depende apenas do amor a pessoas (ou a causas, porque não?) e da energia e da magia que Ele (o Amor) é capaz de inspirar em qualquer um de nós.

E basta, posso garantir, para alguém ser capaz de sentir o espírito do Natal e de aprender a vivê-lo como mais um lembrete de como a felicidade é possível e mais do que nela acreditar é fundamental querer abraçá-la.

 

Eu sou agnóstico quase ateu. Mas apenas na parte em que isso me fornece o pretexto para querer, ou pelo menos alimentar essa fé, a todo o instante apalpá-la...

publicado por shark às 23:15 | linque da posta | sou todo ouvidos