A POSTA QUE ESTOU MANSO COMO UM CORDEIRO

Há períodos da nossa vida que parecem concebidos para funcionarem como castigos pelos pecados, se nos deixarmos embalar pelos efeitos de uma educação católica que foi imposta na infância à maioria das pessoas da minha geração.

Mesmo os agnósticos, quando confrontados com os maiores ou menores pesadelos que uma existência nos pode dar a provar, acabam por no meio do desespero de causa apontar para essa relação crime-castigo quando não existe uma forma racional (ou a capacidade de a pensar) para justificar esses momentos menos bons.

 

É absurdo, tal raciocínio, quando duvidamos da existência de um Deus como o pintam as religiões predominantes. Porém, existe um ponto de quebra, uma fraqueza inevitável que sobrevém a esses períodos negros em que tudo parece conjugar-se para nos vergar sob o peso de uma relação sorte/azar desequilibrada em favor deste último. Sem um alvo concreto para qualquer tipo de revolta e sem explicação cabal para essa sucessão de problemas não há heróis e todos acabamos, cedo ou tarde, por embicar para a tal escapatória da mão à palmatória divina, para o sentimento de culpa perante as aflições que parecemos atrair quando se multiplicam e parecem mesmo feitas à medida para funcionarem como uma retaliação do destino (ou de Deus) pelas coisas menos boas que podemos atribuir à nossa intervenção.

 

Soa fraco, eu sei, e quem não tenha enfrentado uma conjuntura astral aziaga não poderá entender este recurso da vítima de circunstância que é assumir-se o réu quando a punição se sente exagerada ou a resistência fica exaurida perante o grau excessivo de sofrimento físico e/ou mental.

 

Na ressaca das quarenta e oito horas mais dolorosas em termos físicos e mais demolidoras em termos mentais que conheci ao longo da minha existência, e ainda me esperam mais uns dias marcados pelas réplicas deste abalo, descobri que é possível chegar a um ponto em que a mente faz tábua rasa da lucidez e os pensamentos correm à solta na cabeça onde se instala uma espécie de anarquia. A lógica presente é a da batata, admito, e a maioria do que se produz é pura alucinação.

Mas quando a dor atenua e o pó levantado pelo alvoroçar da mente dorida assenta começamos a purgar o sistema de tudo quanto percebemos fruto do natural desnorte destas situações e ficamos surpreendidos com a clareza e a pertinência das conclusões que se podem extrair na ressaca de períodos assim.

 

Não sou um homem novo nem descobri a luz por estar a ser submetido a um conjunto de péssimas provações.

Mas sinto, como qualquer pessoa nessa condição, o impulso irresistível de retirar das mesmas algo de bom.

 

Espero que também nesta dimensão de mim essa verdade venha a confirmar-se e mesmo quem possa achar que mereço o castigo nos moldes em que o defini mais acima me conceda o benefício de tal dúvida, a de que estas lições de humildade à bruta podem corrigir alguns excessos ou defeitos que mesmo não justificando de forma racional a existência de punições terrenas acabam por entrar na equação nem que seja por associação de ideias.

publicado por shark às 23:17 | linque da posta | sou todo ouvidos