COMO AZEITE A BOIAR

Sempre à superfície, evitando o naufrágio, a imersão em coisas profundas que corta a respiração quando surgem ao longe as ondas da substância que se pretenda evitar.

 

Sempre à tona para alguém reparar na pessoa mais vistosa da zona, a luz dos projectores mais a hipótese de amores em profusão que compensem no coração a ausência da verdade que as emoções nascidas da vaidade, do egoísmo sem quartel, não conseguem reproduzir.

E depois a tentação de multiplicar pelo engodo de uma imagem fabricada, a autenticidade relegada para o plano das coisas que só atrapalham a ilusão que se preza como uma sensação de euforia passageira, poder chamar-lhe paixão durante a vida inteira, puro malabarismo, depois de mais uma entre muitas, outro simples algarismo, ter chegado ao fim.

O somatório de vitórias conquistadas assim, o ego afagado pelas glórias sem nexo que às vezes incluem o sexo que envergonha quem muito prometeu na fotografia de si que construiu e afinal não corresponde por inteiro onde é tudo verdadeiro e nenhuma encenação consegue disfarçar.

 

Sempre à vista, a navegar na linha do horizonte, superando o medo de que o sol desponte e derreta com o calor a maquilhagem do amor falado, o único conforme ao combinado com os seus botões trapaceiros.

A multiplicação das falsas partidas, a anulação sistemática das corridas a meio do que se entende como uma competição, eu tenho muito de tudo e tu não, como putos inseguros acabados de chegar ao liceu, hoje és tu mas todos os dias sou eu, na crista da vaga onde a pessoa se equilibra à vista de uma corte de falsos aduladores que aguardam a vez na fila para os amores de consolação, falados, sem consumação, criados por magia pela sede de fantasia que é a única que pinga no rosto escondido por detrás da máscara, tanto tempo tapado que até o espelho o esqueceu, da pessoa por si inventada, a pessoa que se precisa mascarada para ocultar a verdade que um dia transparece no olhar desiludido impossível de camuflar.

 

Sempre à superfície, onde se possa recuperar do trambolhão resultante do fracasso mais recente sem que alguém consiga reparar, em recolhimento, que a história de recurso para o explicar já não cola quando somada às anteriores, a ascensão e queda de muitos amores afogados na mágoa instantânea daquela água onde a flutuação momentânea não apaga a memória dos naufrágios consecutivos nem lava os detritos corrosivos de cada farsa que deforma sempre mais o rosto da alma com uma nova cicatriz que não desaparece jamais do coração, não como se fosse pintada a giz no alcatrão, que marca, que dói, tal e qual permanecerá na lembrança o falso auto-retrato de alguém que se pinta como afinal nunca será.

 

E provavelmente não foi.

publicado por shark às 20:14 | linque da posta | sou todo ouvidos