A POSTA SEM PIADA NA CASERNA

Que fazes tu, soldado, que não passas de mais um homem desorientado numa guerra que te prepararam para combater mas sem qualquer alvo para abater que não tu mesmo sob o fogo cruzado dos inimigos entrincheirados no teu interior?

Quem és tu, desertor, que não disparas para acertar, nunca atiras a matar porque usas pólvora seca, barulho para intimidar a ameaça potencial e a munição real conservas numa algibeira para usares logo à primeira oportunidade em que a tua estranha realidade, como a percepcionas, te atingir como uma bala perdida no tiroteio instalado em teu redor?

 

Respira fundo, renegado, e permanece imóvel nesse campo minado pois só o contacto directo poderá fazer-te explodir e se nunca estiveres por perto nem os estilhaços dos que, incautos, tentarem atacar te atingirão.

Resiste, se necessário, à traição, sentinela, do falso camarada que tem a arma preparada para te acertar no momento em que te perceber desatento pela luta com o exército ocupante da tua insanidade latente e aproveitar a ocasião em que te deixes desarmar por uma emoção guerrilheira capaz de te mutilar para a vida inteira com uma estratégia ardilosa, talvez uma espingarda com um cravo ou uma rosa no cano que pode apenas constituir um engano para esqueceres a bala escondida por detrás, a intenção disfarçada que é bem capaz de te demolir as defesas, caso esqueças, guardião, a necessidade absoluta de protecção contra as surpresas pois vale tudo na guerra como no amor.

 

Se algum dia fores atingido, lutador, se perceberes que foste ferido pelo disparo certeiro do invasor que descobriu como trespassar o teu escudo de papel, essa estúpida emoção à flor da pele que converte num alvo fácil de abater, concentra a tua força no controlo da dor.

E depois só tens que decidir, mercenário, se pretendes abandonar o campo de batalha sem saberes as respostas ou, antes pelo contrário, com as tuas conclusões ripostas, barricado a sós no cimo da torre onde passas a disparar de volta e de onde conseguirás avistar, ao longe, o pó levantado pelo agressor na sua retirada silenciosa, deixando para trás um cravo, ou talvez uma rosa, que apanharás do solo ensanguentado para substituir a medalha de que não te sentirás merecedor.

 

Para guarnecer, veterano, a memória de mais um engano, outra cicatriz, com que aprenderás a viver em segurança se não permitires a qualquer flor fincar a raiz no canteiro traidor da tua tão daninha quanto ingénua esperança.

publicado por shark às 18:58 | linque da posta | sou todo ouvidos