A POSTA QUE NÃO É SÓ FACILIDADES

Isto da paternidade, porquanto insubstituível por qualquer outra maravilha das que a vida nos oferece, tem o senão de à intensidade da forma como a vivemos corresponderem, em proporção directa, situações complicadas de enfrentar.

Reguila como fui e tendo a marafilha herdado (demasiadas) características do pai é cada vez mais frequente ver-me na pele do mau da fita a julgar falhas dela que constam do meu currículo adolescente.

E se no que toca às questões ligadas, por exemplo, ao desempenho social consigo equilibrar o papel disciplinador com a abertura de espírito indispensável, no que toca ao percurso escolar, pela relevância, vejo-me encurralado quando as negas que ela me traz correspondem na íntegra às que eu próprio, num passado distante, produzi.

 

Sou um sortudo, ou tenho sido, no que concerne ao desempenho escolar da marafilha. Sem grande empenho (onde é que eu já vi este filme?) consegue notas que a colocam sistematicamente no terço superior da sua turma e até já lhe valeram uma passagem pelo quadro de honra de uma escola.

Esse facto, contudo, acaba por me complicar ainda mais a ingrata tarefa de aplicar aos desaires uma reacção proporcional à que assumo nas alegrias, imensas, que ela me dá.

A sério, sinto-me um biltre quando leio na sua expressão a tristeza por ter desiludido quem manifestamente mais se esforça por impressionar, mesmo tendo a noção de que não existem alternativas se quiser cumprir o meu papel de encarregado de educação que, bem ou mal, continua a parecer a melhor aposta no futuro dos filhos que tenhamos a nosso cargo.

 

No entanto, na hora de assinar um teste de Matemática com nota a vermelho, o instinto diz-me para não optar pela palmadinha nas costas, todo contente por ela ser tal e qual o papá em pequeno mas antes pela manifestação de desagrado tão contida quanto possível sem deixar de reflectir a minha preocupação.

É uma porra, isto. Tresanda ao conceito subjacente ao ser preso por ter cão...

Se uma pessoa facilita, desdramatiza em excesso ou faz de conta que não é nada os filhos podem ler nessas reacções um facilitismo que os irresponsabiliza. E se, pelo contrário, tentamos deixar clara a necessidade, a obrigação, de darem o litro no que de mais importante lhes compete nesta fase do percurso, carregados de sentimentos de culpa por termos que reagir mal a algo a que os nossos pais tiveram também de enfrentar,o cerco aperta-se em torno do dilema o que se quer e o que se deve fazer.

 

Sim, fui um cábula a Matemática. Detestei a imposição daquele engulho em vários anos da minha vida escolar e raramente consegui uma nota decente em função do meu esforço, pois era raro perceber o aeiou daquela disciplina que depois se chamou cadeira e eu continuei de pé...

E vejo, por comparação com as notas magníficas da marafilha em tudo o resto, que a malapata é hereditária e também ela tem ali um sacana dum desafio onde nem possuo capacidade para a ajudar a entender a matéria nem posso ignorar a minha função que implica fazer tudo ao meu alcance para que ela invista de si numa área do conhecimento criada para atormentar cérebros como o nosso.

 

E pronto, é isto.

Ou desabafava aqui ou iria ver-me grego para conter agora as lágrimas que a fiz verter não pelo que lhe disse ou fiz mas apenas pela desilusão que transmiti, enquanto adiava o abraço carinhoso e os muitos beijos que acabei por lhe dar depois...

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publicado por shark às 12:00 | linque da posta | sou todo ouvidos