E PRONTO...

Depois de uma época cheia de glórias e conquistas (ok, foi só uma mas nós lampiões não somos ingratos, nem pobres a pedir, enfim...), as coisas voltaram à normalidade: todas as equipas portuguesas presentes nas competições europeias ganharam menos a minha.

E com o FCP (outra vez) a jogar noutro campeonato, com o Braga titubeante mas capaz de dar a volta mesmo a tempo de nos lixar mais três pontitos na segunda e com o Sporting a dar chapa cinco, revelando estofo para recuperar do mau início de época, voltam os dias da tremideira de cada vez que jogamos com o Paços de Ferreira. Ou equivalente.

 

É muito difícil ser português nos tempos que correm, com a crise a acentuar-se e a careca dos números a vermelho a destapar-se com inegáveis reflexos na nossa capacidade de honrar compromissos no final de cada mês.

Mas é muito mais difícil acumular a actual desdita de ser portuga com a de ser benfiquista.

Senão reparem: uma das dificuldades de ser português é olharmos para o estado actual da Nação e tentarmos rever nisto o mesmo país que, noutra vida, noutro planeta, noutra dimensão, avançou para os Descobrimentos. Mas isso das caravelas já foi há bué, enquanto que a glória do ésseélebê durou imaculada até há pouco mais de duas décadas (mais ou menos até aparecer o Messias nortenho que tem conseguido dar mais porrada no Benfica do que El-Rei D. Sebastião levou em Alcácer-Quibir).

Quer isto dizer que lampiões como eu, que ainda viram jogar o Eusébio e o Chalana e o Zé Henrique, caíram do céu para verem jogar o Kleber e o Gaitan e o Roberto. E piores ainda, se recuarmos uns anitos ao tempo em que um escocês chamado Souness recrutava tudo quanto era velha glória britânica de segunda categoria para nos fazer humilhar em goleadas impensáveis perante adversários mixurucos.

 

A dor, esta dor na alma lampiona que nos dilacera perante jogos como o último, reside no facto de o tempo do Glorioso nos soar como tendo sido ontem. Não foi. Passei metade da minha vida a gozar os adeptos leoninos e portistas e a esfregar-lhes estatísticas demolidoras nos cachecóis e bandeiras. E tenho vivido a segunda metade a engolir enxovalhos, atenuada aqui e além com um troféu qualquer de segunda categoria ou um título arrancado a ferros para no ano seguinte ter início mais uma hecatombe benfiquista, um hecatombo nas legítimas expectativas de qualquer adepto encarnado que é um adepto mal habituado, a vencer quase tudo quanto pisava o Inferno da Luz que em má hora demoliram e só deu para o torto a sério quando a mulher de um dos Presidentes do clube decidiu lá instalar uma capela...

 

E eu tenho, eu preciso de desabafar este duplo desgosto de ver desabar em simultâneo a Pátria que descobriu o Brasil (e por isso é a verdadeira responsável pelo talento que os nossos irmãos brasucas têm para jogar a bola, se quisermos ir ao âmago da questão) e o Benfica que é (cada vez mais) uma nação demasiado parecida com a nossa.

É injusto, terem-nos incutido na escola (antes do 25 de Abril, ainda as galinhas eram quase dinossauros) uma Pátria feita de nomes como D. Nuno Álvares Pereira, Infante D. Henrique, Vasco da Gama e até, para esticar a coisa até ser quase contemporânea do Regime, Gago Coutinho, e cantado as proezas futebolísticas do Águas (o Zé, não o Rui), do Coluna, do Zé Torres e outros assim para nos tornarem arrogantes ao ponto de deixarmos de encarar um segundo lugar em qualquer classificação como algo de aceitável.

É quase cruel, nesta sofrida pele que vestimos, nós os seis milhões e picos de benfiquistas que ontem pudemos assistir a mais uma prestação medíocre por parte do nosso plantel de segundas escolhas (com um ou dois virtuosos agarrados pelos cabelos, a um custo incomportável, para disfarçar a pobreza franciscana).

 

Estou, como qualquer lampião, desanimado com esta montanha russa esquisita onde as subidas ao céu são fugazes, mal tocam as nuvens (sim, só nos basta o título de campeões do mundo e arredores) e raramente acontecem e depois as descidas são a pique e levam-nos em pânico ao inferno das derrotas, das desilusões, dos pró ano é que é à sportinguista.

O problema é que não tivemos décadas a fio para nos adaptarmos aos novos tempos, como os lagartos cujas glórias a sério remontam ao tempo dos cinco violinos, quando ainda mal a música tinha sido inventada, e por isso puderam descobrir a paciência do chinês que os manteve numa suave resignação até começarem as bancadas quase vazias e as cenas de porrada nos balneários e nas assembleias gerais que lhes denunciam a crescente falta de pachorra para serem os bo(m)bos da festa.

E o outro problema é existir um Pinto da Costa que conduziu o seu clube a um patamar invejável (sim, estou roído disso) e que de pouco consolo nos vale enquanto figura sinistra que manipula as marionetas da arbitragem.

 

A gaita é que também jogamos lá fora e aí já só com uma boa dose de teoria da conspiração conseguimos descobrir o dedo do Grande Satã tripeiro por detrás das roubalheiras de que, afinal, quem nos dá festivais de bola como o de ontem até nem precisa...

publicado por shark às 22:43 | linque da posta | sou todo ouvidos