MARAFILHA ÚNICA

Sim, filha, vou sempre exceder-me nos medos, nas paranóias, em tudo o que te irá irritar um dia por te limitar algumas das opções que me esforço por te conceder dentro do apertado espaço de manobra que a minha preocupação com a tua segurança, o teu bem-estar e a tua felicidade me permite.

Não, filha, eu não entendo os pais capazes de viverem a sua função sem sentirem esse aperto, esse reflexo do instinto protector que até os animais manifestam, capazes de morrerem pelas suas crias como eu me garanto capaz por ti, como não respeito os que não possuem a inteligência emocional suficiente para abarcar a vastidão, a intensidade da emoção associada a um simples abraço apertado como os que tantas vezes me dás e por isso se permitem deixar os filhos crescerem como estranhos a quem não conhecem os gostos e os desgostos, as fraquezas e as forças, a essência de alguém que possui parte da sua.

E odeio os pais capazes de magoarem, de abusarem, de maltratarem de alguma forma as pessoas mais importantes de qualquer vida digna desse nome.

 

Sabes, filha, vou sempre ensinar-te a exigir que te acreditem especial, no dia temível em que te veja exposta a todos os perigos e ameaças que enfrentei ou dei a enfrentar quando chegou o dia de a vida me ensinar os contornos difusos da paixão que nos tolda a razão e nos expõe à menoridade dos que não foram ensinados, como tu, a serem pessoas de bem. Cavalheiros, incapazes de te entenderem como mais um troféu, mais uma cabeça na parede imaginária onde penduram as peças de caça, imbecis, às quais não atribuem qualquer significado ou valor. Vou sempre ensinar-te que na verdade do amor não existe lugar para leviandades hormonais que vulgarizam os momentos especiais à altura da pessoa bonita que reconheço em ti.

Vou sempre escrutinar o gajo por detrás do olhar que te cobiça e deixar-lhe bem definida a estranha sensação de que não serei capaz de contenção alguma para quem arrisque sequer beliscar essa tua vontade espontânea de sorrir porque nasceste à pressa, prematura, tamanha a necessidade de aproveitar o tempo para experimentar a existência que constituirá sempre um orgulho meu ter partilhado na concepção.

 

Sim, filha, vou sempre exagerar na protecção e num rol extenso de cuidados e de precauções que reduzam ao mínimo ou a nada a estatística de tudo quanto de menos bom te possa ameaçar. Sim, vou continuar a avisar-te acerca dos perigos de uma vida, em cada etapa percorrida ao longo deste caminho onde te acompanharei até onde puder, se possível até já seres uma mulher adulta e senhora de ti própria como te incuto desde o primeiro dia. E mesmo aí não conseguirei por certo reprimir o tal instinto que me levará a olhar os outros como os fósforos com os quais não te deixei brincar, o perigo latente de todos os males que aprendi a identificar ao longo do meu percurso que a tua entrada revolucionou, uma nova estrada que o horizonte me apresentou, de sentido único para onde puder observar-te de perto mesmo mantendo-me discreto no lado de fora da redoma para poder a qualquer instante estender sobre ti a minha asa, o consolo carinhoso que sempre te ofereci, ou descobrir em mim o monstro capaz de estilhaçar quem te queira magoar o corpo ou a alma, a força descontrolada de um pai com a mente ensandecida pela reacção instintiva deste amor que não morrerá comigo porque deixarei o seu rasto bem marcado na tua memória daquilo que tentarei sempre representar para ti.

 

E sim, filha, o dia em que nasceste será para sempre o melhor que viverei ou vivi.

publicado por shark às 11:30 | linque da posta | sou todo ouvidos