A POSTA QUE ATÉ PERCEBO UM NADINHA DA COISA

No fundo, o que distingue as pessoas que amamos e supostamente nos amam (ou simplesmente gostam de nós) das restantes?

Entre muitas outras coisas distingue-as o facto de se preocuparem connosco, de sentirem a nossa falta, de nunca descuidarem as atenções que sabem importantes, mesmo quando isso nem encaixa de todo na sua forma de lidarem com outras pessoas que amam (ou simplesmente gostam).

Parece pouco relevante, eu sei, mas como se manifesta um amor ou uma amizade senão nas coisas, nos detalhes, que distinguem essas emoções de outras menos importantes?

 

Sou provavelmente das pessoas menos habilitadas a ensinarem seja o que for a alguém em matéria de relações humanas. O meu currículo social fala por si e não me deixa margem para devaneios.

Todavia, e como qualquer calhordas em qualquer área, aprendi uma ou duas coisitas acerca de mim e dos outros ao longo do tempo em que os meus cabelos entenderam mudar de cor.

Essa é a autoridade que me confiro quando discurso acerca do que respeita à interacção entre pessoas. Tal como sabemos que até escrevo bem e nem por isso sou flor que se cheire para a maioria, é legítimo presumir que mesmo sendo um tipo sem jeito para, por exemplo, relações amorosas, posso ter umas luzes acerca de um aspecto ou outro.

 

A luz que me guia pelo amor é a que ilumina alguns dogmas a que me agarro para perceber o mínimo acerca do assunto. E desses dogmas fazem parte os que obrigam as poucas (raras) pessoas a quem me entrego a respeitarem essas regrazinhas mixurucas que imponho apenas a quem achar que vale a pena tolerá-las no balanço final da relação.

Dessas regras destaco nesta ocasião a necessidade de exibir nas pequenas coisas essa enorme felicidade que é o amor que se sente ou se dá. Como enfatizo a superior capacidade de perdoar momentos infelizes ou de saber dar o braço a torcer quando metemos os pés pelas mãos.

Pequenos luxos a que não podemos dar-nos quando os outros não nos são próximos e se estão nas tintas para as mariquices e peculiaridades da nossa personalidade mais ou menos conturbada.

 

Quando numa relação alguém entende ignorar pressupostos cujo desrespeito sabe colidir de forma frontal com quem os abraça, esse alguém não pode de todo afirmar-se interessado em preservar a ligação em causa. É mais do que evidente que os focos de tensão acabam por proliferar ao ponto de a relação deixar de ser saudável e de as emoções acabarem por constituir um presente envenenado que de pouco ou nada serve, excepto para tornar ainda mais dolorosos os momentos de conflito.

É nessa altura que uma relação de qualquer tipo deixa de fazer sentido para quem nela participe, precisamente por tornar-se mais e mais distante e menos, cada vez menos, harmoniosa.

 

Ao longo de uma vida tive a sorte de conhecer muitos amores e a desdita de sofrer a sua perda. Sobrevivi, mais ou menos disponível, mais ou menos confiante, mais ou menos qualquer coisa que um amor sempre acaba por somar ou subtrair. E nunca, milagre, passei um dia sem alguém afirmar por mim a sua amizade, o seu desejo ou a sua paixão, e o milagre reside no facto de isso acontecer com um gajo maioritariamente tido (se quisermos ser rigorosos nisto das estatísticas) como difícil de aturar e incapaz de merecer grandes sacrifícios pessoais para preservar na qualidade de amigo ou de amante.

 

A vida é assim, injusta para algumas e alguns que se acham superiores a mim nessas artes da amizade e do amor mas não têm a sorte de poderem afirmar o que acima afirmei, com a arrogância justificada de quem se assume igualmente confrontado com a tal estatística que não esconde os fracassos como não oculta os méritos quando comparamos os resultados práticos de cada uma das abordagens que, afinal, não são boas nem más e apenas variam de pessoa para pessoa.

 

O problema consiste apenas naquela história das metades da maçã. E algumas não encaixam por mais que se tentem limar as arestas...

publicado por shark às 17:10 | linque da posta | sou todo ouvidos