ECLIPSE TOTAL

É raro, mas de vez em quando a marafilha lá me consegue arrastar para uma sala de cinema (mais de um conto e duzentos por pessoa, mais pipocas e cola, toma lá para abrires a pestana).

E assim, somando-lhe a fase dvd da questão, lá venho tomando contacto com pérolas como o À Procura de Nemo, a saga Rei Leão, o Kenai e Koda e afins.

Claro que o tempo não abranda e de repente dei comigo a comprar bilhetes (mais de um conto e duzentos, pá, seis euros e picos, é puxado...) para um filme do tempo dela que já deixou de ser o do Mogli, da Pocahontas e similares.

Regressei, pois, a uma sala do Vasco da Gama para assistir ao derradeiro componente de uma trilogia (sempre um risco elevado).

Eclipse, nem mais.

 

Ultrapassado o choque de perceber a marafilha mais interessada nos contornos depilados dos esculturais lobisomens da história (o tempo dos monstros peludos já lá vai e os lobos maus deram em lobinhos bons) do que nas florinhas e nos passarinhos, lá me prestei a ver a coisa e assim livrar a vizinhança de um ronco tipo casa das máquinas.

Claro que não vos vou contar o enredo (embora talvez até fosse um favor que vos fazia), mas posso adiantar que a coisa até mete os tais lobos que afinal (ouvi dizer) nem são maus de todo e os capuchinhos são vampiros capazes de expandirem a depilação da matilha de mutantes até ao osso.

Também há humanos na história, mas na maioria servem de figurantes na refeição da vampiragem. E há uma moça, protagonista e tudo, que é humana mas com apetência latente por uns leucócitos e umas plaquetas aqui e além.

A moça, coitada, de representação não percebe nada. Mas é girita, politicamente correcta (virgem apesar de já ter carta de condução, coisa de filmes...) e anda ali na película toda dividida entre um lobisomem com pouco pelo e um vampiro com pouco agasalho.

 

Aliás, a cena mais intensa (chamemos-lhe assim, prá pala Lauro António ou Mário Augusto) acontece precisamente no pico da disputa entre o tipo desalmado e o rival tosquiado que lhe cobiça a piquena.

A sério, depois de os ver rosnarem um ao outro (literalmente, no caso do lobito) com a moça a fazer de bola de pingue-pongue (mas com menor intensidade dramática) ao longo de boa parte do filme é quase pungente um momento em que o trio se reúne numa tenda, a moça tirita de frio, o lobisomem em tronco nú pretende valer-lhe com a sua dimensão vulcânica e o outro, coitado, tem que ceder ao superior interesse da garina e deixa o outro enroscá-la em si dentro do saco cama por não poder cumprir ele próprio a função (parece que são frescos, os vampiros, apesar de no caso em apreço serem mais peludos no peito do que os lobisomens).

O diálogo entre ambos, do outro mundo, enquanto a jovem dorme no peito do menino lobão, quase, mas quase nos dá vontade de ver interrompida a palestra com um prolongado beijo na boca entre os dois machos alfa tão ternos um para o outro ao ponto de quase ignorarem a presença da virgem pseudo assanhada mas tão capaz de partir a mão com um murro para punir um beijo como de insistir com o totó do chupador de sangue para lhe tratar do assunto mesmo antes de consumado o matrimónio que ele(!) tenta impor como condição essencial para se alambazar com a fruta.

 

Bom, e pouco mais vos posso dizer acerca deste eclipse (só pode ser, e dos prolongados, dada a facilidade com que os vampiros andavam à trolha em plena luz do dia) cheio de dentadas e de louça partida (só vendo o filme percebem esta...).

Se precisarem de um entretenimento familiar sem esforço intelectual estão ali tão bem como em qualquer outro lugar.

 

Ah, mas tentem apanhar lugares nas filas mais distantes da tela.

A barulheira lá à frente não nos permite... meditar acerca das profundas (caninos compridos é no que dá) questões levantadas nesta jovem película.

publicado por shark às 01:27 | linque da posta | sou todo ouvidos