A POSTA POLAROID

Há acontecimentos, bons ou maus, que constituem os momentos mais marcantes de uma vida ou de uma relação entre as pessoas. São episódios que constituem tema de conversa no futuro, no qual queremos sempre rever-nos com uma imagem à altura da situação e das pessoas envolvidas.
Contudo, quando por algum motivo a nossa participação em tais momentos fica marcada pela negativa não há esponja que apague o rasto permanente que nos associa em má figura.
E cedo ou tarde, essa impressão, que na altura quase nos faz sentir estranhos a toda a situação, acaba por corroer a própria ligação entre quem a viveu.

 

É difícil, em determinados contextos, cumprir sem mácula alguns papéis. E é proporcionalmente fácil dar o passo errado, não dizer as palavras certas ou ser apanhado num qualquer conjunto de coincidências infelizes ou de circunstâncias extraordinárias.
Por isso, mesmo quando estamos cheios de boas intenções e, mais ainda, de vontade genuína de não fazer asneira por querermos de facto ficar associados pelas melhores razões aos tais momentos que sabemos importantes e mexem connosco de alguma forma, sentimos sempre como uma injustiça as pequenas partidas que o acaso nos prega. E quase como uma traição a leviandade de alguém que entenda aproveitar um melindre pontual para exercer o tipo de poder que faculta uma qualquer forma de retaliação.

 

Claro que as varas têm sempre dois bicos nestas coisas e nem que seja numa reacção a quente é um instante enquanto vamos longe demais ou, na sequência de uma bronca nas piores circunstâncias possíveis (as tais que se gravam para mais tarde recordar ou apresentar a factura) acabamos por descobrir que afinal o papel que julgávamos vestir não correspondia ao outro guião.
Descobrimos a sensação de sermos dispensáveis, meros figurantes à mercê dos humores de quem realiza de facto a película e gosta de finais com melodrama.
E lá está, ficamos condenados a ser o rosto contorcido num esgar momentâneo no canto de uma fotografia onde os outros parecem brilhar.

 

Quando uma situação desta natureza decide proporcionar-se no mesmo dia em que outros azares muito foleiros ou exibições de falta de carácter das pessoas nas organizações nos confrontam, a vontade que dá é a de desistir das fotos em grupo e optar pelas individuais.

 

Mesmo que isso implique passarmos ao lado dos momentos e das oportunidades que entendamos especiais.

Tags:
publicado por shark às 23:25 | linque da posta | sou todo ouvidos