FORA DO REDIL

Um dos conceitos aparentemente mais confusos para o entendimento da maioria das pessoas é o da desconsideração. Este palavrão, que traduz um gesto (ou respectiva ausência) que cai mal a alguém, exprime um sentimento negativo que deriva de esse alguém se sentir de alguma forma reduzido à sua mínima expressão por parte de outrem.

 

Uma desconsideração pode manifestar-se sob as mais variadas formas. Do enxovalho inerente ao insulto subjacente, a panóplia de consequências como as sofrem as pessoas desconsideradas depende acima de tudo da natureza do vínculo que liga os protagonistas.
Por exemplo, entre dois parceiros comerciais uma desconsideração pode resultar da negação de um fiado habitual. Ou seja, um dos intervenientes resolve esquecer a ética da coisa e o valor relativo do outro e muda de atitude sem aviso prévio. Acontece imenso quando um dos parceiros é um banco.

Contudo, entre duas pessoas a desconsideração pode ser originada pelo desleixo de uma delas. Seja um compromisso não respeitado, uma data importante esquecida ou ignorada ou a simples ausência de um contacto que se impõe, é fácil de perceber o quanto a desconsideração acaba por oscilar em função do elo em causa: quanto mais próximas as pessoas, mais grave a situação.

 

Dificilmente se encontram inocentes nessa matéria. De uma forma ou de outra, a desconsideração acaba por estar presente no percurso de qualquer pessoa nem que seja por descuido ou distracção.
No entanto, a forma mais indecente passa pela desconsideração intencional, deliberada,
como recurso para amansar alguém (atenção que não resulta com animais ferozes), como meio de punição ou de represália ou apenas como uma forma tortuosa de marcar território, de evidenciar o poder, o ascendente que (supostamente) se tem sobre a pessoa desconsiderada.
Estas últimas são as desconsiderações mais abjectas, pois à atitude negligente corresponde uma motivação hostil. Cai mesmo muito mal e só santos, anjos ou alimárias não reagem à bruta.

 

Pior ainda é o caso da pessoa que depois de denunciar uma desconsideração como a sentiu se confronta com uma variante, com a reincidência que pode resultar, por exemplo, da ausência de uma reacção que agrava a desconsideração original com o pesado fardo da postura malcriada.

É um ponto sem retorno, o da desconsideração reiterada, e regra geral só deixa três caminhos ao dispor da pessoa desconsiderada: ou insiste na manifestação da sua indignação perante os factos em apreço expondo-se a mais um enxovalho (esta é a versão tótó da coisa); ou reage à bruta deixando pouco espaço de manobra para futuras conciliações (esta é a versão colérica da coisa) ou, em alternativa, pura e simplesmente não reage nem deixa portas abertas para arrependimentos tardios da treta. Esta é a versão definitiva, separando sem apelo nem agravo as partes envolvidas.

 

E é também esta última que explica boa parte das minhas dissidências.

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publicado por shark às 18:47 | linque da posta | sou todo ouvidos