A ANGÚSTIA DO ELEITOR NO MOMENTO DO PENÁLTI

Como não me canso de referir, de política não percebo nada e sou mais versado em futebol que até costuma dar outro pano para mangas nas conversas de tasca (que começa a ser o local mais apropriado para falar de política em Portugal).

Contudo, o tema é incontornável quando se vive um ciclo infernal de sufrágios para esmiúçar e custa deixar a análise destas coisas na blogosfera apenas aos entendidos da coisa que, na prática, ou complicam até não se perceber um boi do que querem dizer ou dizem coisas tão imprecisas que até um leigo as distingue nessa condição.

E por isso mesmo existe uma quota de mercado para os bitaites dos cidadãos anónimos como eu, gente capaz de peneirar à superfície mas sem a profundidade dos raciocínios que por aí encontrei neste dia de ressaca eleitoral.

 

Pego precisamente pela expressão ressaca (somando-a à expressão tasca, mais acima) para dar o tom a esta posta acerca da política em Portugal e de como ela acaba por parecer talhada para promover a abstenção, feita da forma foleira como se vê.

Não tenho pretensões de analista, pelo que os meus considerandos acerca destas coisas passam mais pela percepção que tenho e vejo reflectida no discurso do povo como eu, que vagueia nestas questões da democracia sem saber muito bem o que pensar do estado de coisas mas com a nítida sensação de que há algo de (muito) podre no reino e de que o futuro da democracia não é tão brilhante como os sorrisos de vitória “extraordinária” de Sócrates ou a disfarçar uma postura deselegante como a de Louçã tentam pintar.

Ganhou quem ganhou de facto, mas perdemos todos com a mediocridade de uma campanha marcada por rumores de espionagem, comboios na paisagem e a personalização da luta partidária que confirma a agonia do combate pela ideologia que Abril nos facultou.

 

E agora seguimos para bingo com as autárquicas, nas quais se multiplicam os candidatos mas, por tradição, desce-se ainda mais a fasquia do bom senso. É cansativo para o cidadão, para o eleitor comum, ver isto da política reduzido à luta de galos na disputa de um poleiro, à bicada. Cansativo e desmotivador, pois não é fácil identificarmo-nos com os cromos que nos tocaram como líderes potenciais nesta fase da história e assim torna-se difícil comprarmos as suas guerras para inglês ver, soando ainda menos genuínas do que as da bola que cada vez mais rola fora dos relvados e torna a verdade desportiva ainda menos credível do que a animosidade de fachada entre os filhos de uma mesma mãe que a todos alimenta por igual.

 

O problema é que na bola uma pessoa ainda pode alimentar a ilusão de que a sorte e o azar podem fazer toda a diferença no resultado final da partida, mesmo com o árbitro a tentar influenciar a coisa.

 

Mas na política, esse jogo com regras cada vez mais confusas e situações cada vez mais disparatadas, ficamos sempre com a estranha sensação de que ganhe quem ganhar e mande quem mandar acabamos sempre por perder todos, menos os figurões que a protagonizam.

publicado por shark às 11:42 | linque da posta | sou todo ouvidos