VALE TUDO

Na guerra como no amor, perseguir um desertor com um exército de arqueiros alados, anjinhos fardados que conquistam territórios no interior de pessoas, as almas rendidas, num campo de batalha estendidas com amor a valer, beijos feitos granadas na explosão dos corpos a foder como se estivessem a combater a morte com a sua mais evidente negação.

O outro, o inimigo, que se esconde no mato crescido de um púbis do qual alguém se apropriou no momento em que se apaixonou, alta traição ao estipulado na tradição e na cultura proibicionista que odeia o amor contrabandista e a liberdade excessiva que para eles representa, conservadores, cheios de recalcamentos e de pudores, os seus tormentos, que incutem à força de uma espada imaginária uma versão correcta da História de cada um como a querem ver escrita, sem amantes secretos na penumbra, sem gritos constantes de um prazer que quase conseguem eliminar nos que derrotam, gozo em demasia, a bomba que explodia nas suas mentes castradoras lançada para o meio dos pecadores que desbundam os seus amores para lá da fronteira aceitável, marginal, censurável, o lado de lá, de fora das suas directrizes principais, as meretrizes divinais pela socapa, o nojo que lhes provoca essa tentação avassaladora que se revela tão destruidora do amor próprio como aquele, o dos outros, que tanto repugna pela sua intensidade incompreensível para os generais do poder sacrossanto que bombardeiam a todo o tempo o temido invasor, o tesão de um amor espontâneo ou de um desejo instantâneo entre pessoas normais que não abraçam os ideais moribundos mas sim os corpos deitados para os receber.

 

Metralhadoras de palavras disparadas a partir de escrituras adulteradas na interpretação, balas de canhão, forjadas no mesmo ferro em brasa com que gravam na carne nua os ditâmes de uma monogamia forçada, imposta, pela força de uma espada imaginária que rasga de alto a baixo a liberdade de escolha de quem a queira defender, o pecado que não podem tolerar sob pena de se perder a guerra contra essa força que não se agarra quando deixada à solta, essa loucura que tanta dor provoca nos mais sossegados, os que vêem os seus valores invertidos em tamanha bizarria como o horror da sodomia e o terrorismo oral na zona genital, insanidade nojenta na sua concepção bafienta de um amor como ele deve ser, um homem que procria com uma mulher assexuada, a sua primeira e única namorada oficial e ninguém pode levar a mal que se divirta com outras, garanhão, para libertar sem medos o tesão que lhe resta depois de filtrado por uma cabeça em estado quase vegetal. Esse impulso animal descabido que se apodera de um homem tentado pelas forças demoníacas que urge derrotar, bandidagem, os que se dedicam à libertinagem chocante e à busca de qualquer amor diferente na prática do que programaram na sua estrutura robótica de seguidores da virtude apregoada mas cingida ao que se conta e ao que se diz.

 

As armas de uma tropa recrutada de entre os escombros de uma humanidade castrada, (des)necessariamente infeliz.

 

publicado por shark às 15:28 | linque da posta | sou todo ouvidos