UM AZAR, A FALTA DE BOM SENSO

O acidente de caça no qual um pai disparou quase à queima-roupa um tiro na cabeça do próprio filho, provocando-lhe morte imediata, suscitou-me a mesma reacção que tive aquando da situação do fulano que deixou morrer o filho bebé dentro do carro por esquecimento.

E tentei descobrir onde está o paralelo entre uma negligência grosseira e uma irresponsabilidade foleira que provocaram uma mesma reacção da minha parte, a condenação imediata dos dois progenitores pela suas falhas com consequências tão trágicas.

 

Perder um filho é o castigo mais cruel que consigo conceber para alguém, sobretudo quando a responsabilidade pela perda é directamente imputável a alguém a quem cumpra o papel de mãe ou de pai de um ser humano. Essa crueldade leva as pessoas mais sensíveis a perdoarem de imediato os protagonistas, coitados, vítimas de um enorme azar, daquelas coisas que acontecem. Mas eu, que até gosto de me achar um gajo porreiro e tal, não alinho nessa misericórdia, nessa solidariedade que desculpa os erros dos outros ao ponto de nem servirem de lição a outros como eles, capazes de levarem um filho para o meio de um número indeterminado de armas de fogo nas mãos de sabe-se lá quem ou de se esquecerem de uma criança de colo numa viatura fechada.

Sinto-me desconfortável com essa chocante incapacidade de enviar palmadinhas nas costas virtuais a quem falha de forma tão grotesca com uma missão de que até a maioria dos animais se mostra capaz: cuidar de uma cria.

 

Não estou livre de um dia uma má decisão, dizer sim quando deveria dizer não, se poder virar contra mim por fazer a diferença pela negativa na marafilha que tanto adoro. Mas estou, isso sim, descansado quanto ao meu discernimento do que é razoável, dos riscos a que posso expor ou não a minha cria, e não vejo razoabilidade em levar um filho para a caça, não consigo conceber essa possibilidade como normal na cabeça de um pai que ame um filho por ser tão forte o instinto protector.

O que me distingue então desses pais, ao ponto de o meu discurso, como a minha actuação, não deixar margem de manobra para paninhos quentes se algum dia errar assim?

Pouco, ao nível social, pois igualmente serei merecedor da complacência dos outros por ser efectivamente vítima de um azar, de uma consequência aziaga qualquer.

Mas muito, pois não consigo chamar azar a uma negligência ou a um risco impensável de correr com um filho. Se um alpinista decide arrastar um filho para a mesma paixão está por inerência a estender-lhe o mesmo risco que entendeu assumir.

 

E isso, para um bota de elástico como eu, deveria fazer toda a diferença na perspectiva de quem tem no mínimo que aprender alguma lição a partir destas tragédias que por nascerem de opções estapafúrdias podem mesmo ser evitadas.

publicado por shark às 17:05 | linque da posta | sou todo ouvidos