SAUDADES DO MEU CÃO

Sempre acreditei na amizade como algo de superior, uma derivação do amor capaz de beber muito do que o caracteriza. A intensidade, a confiança, a verdade, a força, quase toda a essência de uma paixão perfeita. Um amigo a sério seria sempre um irmão para mim, algo que jamais funcionará no vice-versa, e por isso constituiria uma referência em aspectos de suma importância para um gajo de extremos como eu.

A um amigo desses, impossíveis, confiaria uma amada nua sem hesitar e jamais me passaria pela cabeça suspeitar algum tipo de cobiça pois a vida ensinou-me que sou homem para oferecer o mesmo tipo de garantia e sei por experiência própria que não é demagogia. Nunca cedi a tentações (nem as toleraria) que envolvessem a companheira de qualquer amigo meu, mesmo apenas um conhecido mais próximo, pois tive sempre em mente que existem cerca de três biliões de mulheres no planeta e não seria certamente aquela a fazer-me imensa falta.

E porque prezo e cultivo o pouco que consigo defender do homem de bem que sonhei um dia tornar-me.

 

Naturalmente, uma pessoa cresce e aprende. Aprende a lição que destroça o coração quando percebemos esse arquétipo como uma utopia, pois se é verdade que nem sempre conseguimos ultrapassar um desgosto de amor é ainda mais verdade que uma desilusão profunda na amizade tem impacto no futuro da nossa permeabilidade ao mesmo tipo de emoção.

A confiança, um bem precioso, constitui um pilar de qualquer relação digna desse nome e qualquer pessoa descobre ou intui o efeito corrosivo da sua perda. À dor subsequente sucedem-se o medo de arriscar, o isolamento inerente e por fim algo parecido com uma desistência.

 

Uma das conclusões que inevitavelmente tiramos quando perdemos a fé nos outros é a de que o problema estará em nós. Demasiado exigentes, demasiado arrogantes, demasiado qualquer coisa que nos ofereça uma explicação para o que dificilmente conseguimos entender quando nos confundem as certezas, acabamos por acrescentar à falta de vontade de tentar aquilo que definimos como as nossas imperfeições. E depois dessa etapa pouco há a fazer e nem nos permitimos a esperança, preferimos abdicar e deixamos cair todas as veleidades nessa vertente que sempre julguei determinante para uma felicidade em condições.

Não se trata de decisões, mas apenas de uma reacção defensiva para que em nós sobreviva pelo menos a crença nesse padrão do que consideramos a perfeição quando a palavra amigo nos enche a boca.

 

Há muito a minha não alberga tal expressão, tamanha a dimensão das evidências, tamanhas as discrepâncias entre o delírio das convicções exageradas e a realidade das relações possíveis.

Nenhum homem que conheço possui esse estatuto superior que, valendo o que vale (e a medida dessa valia está naquilo de que eu próprio sou capaz na pele do amigo verdadeiro), no meu caso concreto equivale provavelmente ao estatuto que atribuo a um grande amor. Não me permito esse tipo de devaneio, tanto pela falta de fé nos outros como em mim próprio no que concerne à capacidade, à dedicação e mesmo à generosidade que a um amigo se exige ou devia. Tudo o que tenho para oferecer nesta altura é o pressuposto da confiança e de lealdade que as minhas fantasias de (pseudo) cavalheiro garantem.

Já ficaria grato ao destino se alguém, outro gajo, por qualquer motivo, me transmitisse um dia apenas essa garantia que fosse sem qualquer espécie de hesitação.

 

E sei que seria quanto bastasse para me merecer uma desmesurada gratidão .

publicado por shark às 22:54 | linque da posta