ROUBAR AOS POBRES PARA NÃO DAR A NINGUÉM

É como ver no horizonte o temporal a avançar e não poder fugir-lhe por estarmos em alto mar, demasiado distantes da segurança de um porto de abrigo qualquer.

Quando a conjuntura ou a simples conjugação de erros e de omissões imbecis ou ambas começam a apresentar a factura, a vida de um gajo complica-se e tudo em seu redor parece desenhado para o esfolar em termos financeiros e, por inerência neste mundo que adulteramos, em termos sociais também.

 

Ninguém perdoa o fracasso em tempos de ostentação. Ainda que justificado por factores incontroláveis, que até podem ter relação com a estrutura e o momento psicológico de cada um quando não é apenas o acaso a determinar, um trambolhão financeiro constitui isso mesmo para qualquer cidadão de classe média entalado entre a ambição de manter ou mesmo trepar no estatuto (o que quer que isso seja) e a ameaça do patamar inferior que está ao virar da esquina num contexto de aflição global.

E é esse contexto a única tábua de salvação para quem sinta o chão a fugir sob os pés, a desculpa perfeita para o colapso que acaba por afectar os outros também e a pessoa encontra conforto na desdita que não enfrenta a sós...

 

Mesmo quando não (sobre)valorizamos os sinais exteriores ou até a felicidade que a "riqueza" alegadamente proporciona, intuimos na boa a dimensão do fenómeno que se abate sobre a vida de um cidadão quando o emprego deixa de ser um dado adquirido ou o negócio florescente se transforma num sorvedouro de capital e o sistema (público e privado) desencadeia os mecanismos eficazes de rapina dos despojos.

Para quem trabalha e vê muitos outros governarem-se à conta de golpadas e intrujices o primeiro sentimento perante penhoras e outras faces feias da complicação é o de uma flagrante injustiça. Porém, isso de pouco vale quando a gestão do caos se apodera do quotidiano das pessoas e mesmo as soluções de recurso capazes de hipotecarem vários anos do futuro surgem como opção. É um tempo de desorientação, marcado por decisões difíceis e constatações terríveis da fragilidade da nossa condição em termos sociais.

 

É por isso que filmes como a da "dona branca" de Almada, mais uma chica-esperta convincente o bastante para garantir a confiança de gente em desespero de causa, não me deixam indiferente. Revolta-me a facilidade com que estas burlonas e burlões, predadores em tempo de crise, instalam uma fachada de negócio legítimo em qualquer lugar e aproveitam-se do desnorte das pessoas para as enterrarem ainda mais no problema para o qual se pintam solução. Para além da perda financeira resultante, 300 euros ou mais (ao que sei), esta gente enganada por quem vendeu a alma ao diabo ainda se vê confrontada com o desânimo que na pele de vítimas deverão sentir.

 

E é também por isso que defendo que a sociedade deve reagir na devida proporção e enfiar direitinhos na prisão todos quantos sejam caçados pelos seus esquemas nojentos de aproveitamento das fragilidades alheias.

 

O oportunismo sabujo numa época em que só a solidariedade pode evitar males maiores justifica, necessita mesmo, das parangonas que como aconteceu no caso Madoff nos anunciem um castigo exemplar. 

 

 

publicado por shark às 10:34 | linque da posta | sou todo ouvidos