A POSTA QUE NÃO TENHO RAZÃO

Ensinaram-nos de pequenos que uma vida digna a trabalhar seria garantia de sucesso e nada nos iria faltar que fizesse, de facto, falta. E alguns de nós até compraram a ideia e decidiram mergulhar nessa onda da dignidade e da honestidade e da incorruptibilidade que, alegadamente, fariam toda a diferença nesse futuro risonho para (todas) as pessoas de bem capazes de exercer um ofício e de não caírem nas garras de um vício qualquer, jogo e assim, que desequilibrasse os pratos da balança.

 

Claro que como em tudo na vida ninguém falou nas letrinhas pequenas que o progresso sempre inclui no contrato social que assinamos em função da sorte, do acaso, do mérito e das características pessoais de cada um/a. Coisas impensáveis na época em que os nossos pais nos educaram, como o crédito ao consumo inventado para todos nos sentirmos no direito de ter um plasma igual ao do vizinho de cima que até desvia uns fundos para se governar, economia paralela, mas ninguém gosta de fazer má figura e a coisa até soa simples no discurso publicitário das prestações a perder de vista (com TAEG’s a passarem bem depressa e, lá está, em letras bem minúsculas no rodapé). Ou ainda mais impensáveis, como a União Europeia, o fim do Escudo, a globalização e todas as (fracas) explicações para os sarilhos que agora enfrentamos sob a forma de uma crise financeira global que arrasta a queda das bolsas aos bolsos dos cidadãos de classe média. Nomeadamente aqueles que compraram o tal conceito de que vos falo no intróito e entenderam virar a cara à vida fácil da marosca, do gancho, do esquema, da cunha ou de qualquer outro expediente daqueles que engrossam de forma determinante o pecúlio dos que definem valores como montantes e nada mais.

 

Desgovernados, é o que somos aos olhos de todos quantos cuidaram de poupar como a formiguinha ou de o ganhar como a ratazana enquanto as cigarras desta vida estiveram entretidas a tocar bandolim. Ou assim. E até pode vir a dar jeito nas estações do metro em que alguns de nós acabarão por encontrar o ganha-pão que a tal crise já roubou a muitos e certamente roubará a uns quantos mais, mas presumo que também aí a concorrência será feroz e a generosidade cada vez menos mãos largas.

Olhamos em redor, buscando os sinais desse desgoverno. Os carros topo de gama, as casas de praia no Algarve, a roupa de marca a atafulhar o guarda-roupa da vivenda geminada num condomínio privado qualquer. E não os encontramos e depois ficamos sem saber o que dizer a quem nos interpela no sentido de obter primeiro uma explicação para o saldo negativo da conta e depois nos confronta com a dura realidade do temos pena mas as coisas são mesmo assim e a gente crescidos demais para o recomeço após o fim da nossa existência financeira legal.

 

As portas ficam todas fechadas aos que se deixam arrastar pelo turbilhão do incumprimento se quiserem encontrar uma forma de sustento depois de repartido o património entre os principais e eficazes credores. A banca encarrega-se de garantir o funeral da dimensão social dos que se deixam preguiçar à sombra das expectativas criadas no dia em que abraçaram uma forma de estar sem mácula à imagem e semelhança da maioria dos nossos avós que honravam compromissos, pagavam com a sua palavra e tinham vergonha de dever fosse o que fosse a alguém.

 

É essa a verdade que só uma crise revela em todo o seu esplendor, quando as prestigiadas e muito lucrativas instituições financeiras que fazem andar a economia começam a fazer sentir a sua presença sem sorrisos por detrás do telefone ou do balcão. De bestiais a bestas num estalar dos dedos da mão, a partir do momento em que as coisas não corram tão bem. Dos cheques de milhares de euros para simbolizarem o crédito pré-aprovado para o tal carro agora rebocado para a empresa de leilões à simples retirada do privilégio da sua emissão para pagar as compras no talho ou qualquer outra despesa que mesmo nos nossos dias consideramos primordial.

 

É essa a realidade de um país minado pela ganância oportunista daqueles que comeram a carne e nos desdenham agora os ossos para eles tão tenros de roer. É isso que nos faz doer, a constatação de que nunca vale a pena ser decente e cumpridor e fazer sempre questão de ganhar a vida de forma honesta e orgulhosa no seu cariz (cada vez mais) excepcional num mundo de crápulas e de medíocres que vêem nos espelhos apenas a imagem do sucesso e nunca o esterco que acumularam nos bastidores enquanto pugnavam de forma habilidosa para o assegurar.

 

E é essa uma das principais razões para muitos de nós hoje considerarem seriamente a hipótese antes impensável de emigrar.

publicado por shark às 18:57 | linque da posta | sou todo ouvidos