AS PUPILAS DA SENHORA DOUTORA

Ao longo do meu tempo de escola tive o prazer de lidar com professores que eram mestres do seu ofício, pessoas capazes de abraçarem a complexa e exigente tarefa de em boa medida substituírem (ou pelo menos complementarem) os pais na educação dos alunos, muito para lá do âmbito da estrutura curricular de cada disciplina.

E havia os outros, gente desequilibrada ou apenas incompetente para a função, que podiam transformar a vida dos alunos num inferno sem apelo, dado que de pouco servia contestar um professor perante os pais desse tempo, ensinados de pequenos a jamais fazerem reparos à actuação de gente rica ou poderosa, de padres, de médicos e de professores.

Era o que nos calhava em sorte e tínhamos que suportar em silêncio quaisquer desmandos e viver sem queixas as respectivas consequências na personalidade que nos competia formar.

 

Embora nunca tenha sido meu apanágio a submissão por inerência a estas vacas sagradas das gerações anteriores retive a lição do respeito à função e tive sempre como bitola os mestres que tive a sorte de se cruzarem com o meu caminho e apesar dos episódios foleiros (que todos vivemos de uma forma ou de outra) só não concluí uma licenciatura porque não pude ou não quis. Ou seja, apesar de tudo o sistema acabava por funcionar bem para a maioria e os casos aberrantes eram tratados dentro do maior secretismo e, naturalmente, sob a asa protectora da inevitável manta corporativa que poupava a classe, qualquer classe, a enxovalhos.

Isso não invalida, contudo, que alguns excessos de que fui alvo me tenham convencido de que me competia garantir que filho meu jamais se sentiria impotente perante uma actuação imprópria de um professor. Essa garantia pressupõe que considere legítimo qualquer meio de que a minha filha se possa valer para desmascarar os impostores que se fazem passar por professores e afinal não passam de gente frustrada ou mesmo insana que dá aulas apenas porque o respectivo “canudo” não lhes abriu outras portas.

 

Do mais recente escândalo mediático ligado à Educação neste país, o inenarrável caso da (senhora doutora) professora de Espinho que só uma gravação e respectiva divulgação dos seus delírios esquizofrénicos terá permitido afastar (suspender) da docência, retive a possibilidade de a aluna que registou uma das intervenções da lunática vir a ser punida por alegadamente violar o regulamento interno da escola onde tudo se passou.

É impressionante como muitas pessoas que aplaudiram a divulgação das célebres imagens da disputa por um telemóvel entre uma miúda calmeirona e uma prof minorca, tão a jeito para enfatizar o drama vivido por alguns professores, venham agora insurgir-se contra uma evidência de que a coisa funciona (mal) para os dois lados da questão.

E se concordo que é inadmissível o uso de um telemóvel numa sala de aula para amena cavaqueira, não duvidem que considero legítimo esse aparelho (ou qualquer outro) como meio de prova deste tipo de aberração. Prefiro seja o que for a imaginar a minha filha submetida a este tipo de situação sem nada ao seu alcance para se poupar a uma cena tão triste.

 

É uma pena, assistir à degradação progressiva do estatuto da carreira docente cujo papel é (deveria ser) preponderante no conjunto dos aspectos mais relevantes para a construção de pessoas em condições e de um país à sua altura.

Mas sem dúvida que nas actuais circunstâncias e se quisermos cumprir os objectivos a que nos propomos relativamente à educação dos filhos que temos não posso deixar de rogar mil pragas a quem ousar levar a cabo qualquer espécie de castigo a quem neste caso só pode ter sido tida como vítima de uma acumulação de erros e de omissões e nunca como culpada de coisa alguma.

publicado por shark às 14:59 | linque da posta | sou todo ouvidos