A POSTA SEM VACILAR

Sofrer por amor é uma agonia. Quanto maior a intensidade da emoção, maior a angústia. Se das restantes dores a memória retém apenas vagas lembranças, excepção feita às que associamos a momentos determinantes pela positiva ou pela negativa como um parto ou a convalescença de um acidente grave, dos desgostos amorosos fica sempre um rasto indelével que não esquecemos como acaba por condicionar em boa medida as nossas experiências futuras.

Definhamos por amor, enlouquecemos por amor, padecemos de uma autêntica doença como a sentimos quando o amor nos desaponta, nos magoa ou nos trai.

Pronto, esta é a perspectiva seca e crua da coisa. Como diziam os americanos no tempo do Bush, it can’t get any worse….

 

Contudo, e no amor como no resto dos factos da vida existem contudos e todavias, se há sentimento capaz de se impor a si próprio como argumento esse é precisamente o que descrevo acima na sua face mais dolorosa. O amor explica tudo no que lhe diz respeito, é ainda mais auto-suficiente do que Deus enquanto conceito por definir apesar de ser igualmente algo que apenas quando se sente ou sentiu é possível falar com pertinência.

Quem nunca amou jamais entenderá a estranha fé que nos move, apesar dos inevitáveis percalços e trambolhões, a perseguir essa emoção como algo de insubstituível, de indispensável para qualquer versão de felicidade digna desse nome. O paralelo religioso também aqui se verifica, como noutros aspectos, e serve apenas para separar os amadores (que não sabem amar e por isso não percebem patavina do que estou a dizer) dos veteranos destas lides (e esses já terão facilidade em decifrar a mensagem e sabem tão bem como eu que é uma coisa sem explicação).

 

Voamos num tapete mágico emocional quando amamos a sério. Levitamos em vez de caminhar. Sorrimos mais, brilha-nos o olhar e aumenta o ritmo da pulsação. A vida surge mais bela, mais apetecível, mais susceptível de valer a pena quando amamos.

Esta verdade, que só negam os pessimistas, os ressabiados ou os infelizes ignorantes no tema, contraria por si só a má onda que descrevo no parágrafo de abertura e constitui uma pequena parcela dos argumentos que nascem do tal argumento principal que é o amor que fala por si. E diz tudo o que queremos saber, sempre que a cabeça, a razão ou qualquer outro rótulo que atribuamos a qualquer disparate capaz de nos afastar do amor decidam complicar.

 

Complicada deve ser a vida dos que nunca tiveram ou perderam algures esse dom de amar e ser amado, de sentir-se abraçado por alguém a quem devemos sempre sentir-nos gratos por nos inspirar e/ou nos dedicar um amor intenso.

Quem sabe percebe porque não hesito em afirmar que nenhum sofrimento por amor, mesmo a saudade, pode algum dia ser pior do que a dor (por muito que dormente ou camuflada) que nos é provocada pela sua ausência num quotidiano vulgar.

Não acontece assim tantas vezes no tempo de uma vida, como acabamos por aprender ao longo do caminho. Sobretudo quando distinguimos a marca deixada pelos amores sérios por contraponto com os fogachos que a memória nos devolve das relações assim-assim, por muito que nos tenham entusiasmado na altura. Sucedâneos, afinal, desse ponto alto emocional que atingimos quando nos empoleiramos nessa extraordinária capacidade de entender o amor e de o agarrar quando essa sorte nos bafeja.

 

São mesmo poucas, as circunstâncias e as pessoas com quem conseguimos experimentar ao longo da vida esse amor que nos arrasta, que nos amarra, quando amamos imenso e temos a sorte de ver correspondida tal emoção.

 

E se as raridades são valiosas por inerência, um amor forte, recíproco e capaz de resistir às inúmeras provações que qualquer amor pode enfrentar constitui sempre algo worth fighting for, justificando sem dúvida os riscos implícitos. Porque nunca lhe faltam as compensações.

 
Nem precisa de explicações.

publicado por shark às 17:59 | linque da posta | sou todo ouvidos