A CHANTAGEM DOS VENDILHÕES

A ameaça lançada pelo presidente da Associação representativa das PME portuguesas, na sequência do anúncio do aumento do salário mínimo nacional para os 450 euros, de não serem renovados os contratos a prazo dos trabalhadores nessa condição é de uma baixeza intolerável.

Na prática a ANPMES assume-se capaz de utilizar os trabalhadores como pedra de arremesso, reduzindo as pessoas à condição de reféns dos caprichos das suas entidades patronais.
E se essa condição acaba por se verificar por inerência, pelos contornos do trabalho precário que um contrato a prazo implica, esta posição dos pequenos e médios empresários constitui a mais descarada assumpção desse facto e deixa claro aquilo que espera os trabalhadores na ressaca desta crise por parte de patrões de tal forma arrogantes que nem conseguiram esperar para discutir o problema no âmbito da Concertação Social.
 
Em causa está um aumento de menos de 25 euros mensais no limite mínimo das remunerações que, de resto, estão próximas do que se define na Europa como limiar da pobreza. Ou seja, esta revolta do patronato é injusta, inqualificável e, nos termos em que foi colocada, é vergonhosa e não há volta a dar, quaisquer que sejam os argumentos invocados pelos patrões.
Que espécie de moral assiste quem se predispõe a utilizar de forma tão leviana o ascendente, o poder que detém sobre os destinos das pessoas? E quem reconhece legitimidade seja a quem for para chantagear assim todo um país, num perigoso paralelo extremista com o recente boicote dos camionistas?
 
Os patrões, mesmo os pequenos e médios, têm o rei na barriga e o monarca é um déspota absolutista.
Não têm o direito de interferir desta forma indigna numa oportunidade rara de melhoria das condições de vida de quem já basta ser refém das muitas dificuldades que a esta crise se associam, quanto mais servirem de escudo protector aos empresários na sua reacção contra um aumento salarial equivalente a metade do encargo com a tv cabo que certamente quase todos suportam.
 
Espero sinceramente que o Governo não recue nesta decisão e pouco me interessa se a apelidarem de eleitoralista.

Com os cidadãos deste país nas garras de gente assim, que venham eleições, imensas, para que ao menos nestas alturas se consigam algumas míseras contrapartidas para contrabalançar os abusos sistemáticos mas silenciados que posições como esta da ANPMES, tão prepotente, permitem descortinar nas entrelinhas.

publicado por shark às 09:33 | linque da posta | sou todo ouvidos