Terça-feira, 27.09.16

Quanto mais me debates menos gosto de ti

Embora tivesse falhado na intenção de assistir em directo ao primeiro debate das presidenciais americanas, claudicando ainda antes do seu início tardio, reuni a coragem para o ver na íntegra em diferido.

Confirmou-se a minha aposta de que seria a versão western de um hipotético Maria de Belém vs Alberto João Jardim.

 

Nunca fui adepto da política espectáculo, do circo no qual as propostas políticas constituem apenas um detalhe no meio da palhaçada. Igualmente dispenso a euforia palerminha dos balões e bandeirolas que mobiliza militantes, empresas da mais diversa ordem e toda uma estrutura partidária na construção de uma imagem. De uma imagem e não de uma ideia. No fundo, sinais de investimento em meios e em energia para uma operação de maquilhagem à medida dos interesses mediáticos porque, subentende-se, é mais importante divulgar o aparato de uma campanha do que alguma proposta digna de alterar a intenção de voto de seja quem for.

Os debates, como as entrevistas aos candidatos, constituem a minha principal fonte de informação acerca, lá está, das pessoas envolvidas, pois raramente consigo apanhar algo de concreto, de substancial, por entre as acusações e insultos cordiais em que quase sempre degeneram os frente-a-frente ou nas entrelinhas de entrevistas antecipadamente preparadas no sentido de trilharem o caminho do politicamente favorável que o politicamente correcto sempre sugere.

Concentro-me por isso, nem que seja para poder aplicar um critério, nas pessoas. Na forma como reagem a quente às várias pressões e no conteúdo com o qual, pelo menos, definem as suas prioridades em teoria. A prática costuma desmenti-las.

O debate Clinton/Trump permitiu-me distinguir um vencedor, que se tratou de uma vencedora, não pela capacidade de argumentação – melhor a dela, menos dada a devaneios – mas pelo facto de Hillary ter podido ser mais Hillary do que Trump se permitiu ser Trump. Ou seja, ela passou o tempo concentrada no judo intelectual e ele, pobre coitado, aguentou-se como se estivesse o tempo todo aflitinho para ir ao WC enquanto a oponente lhe levava os argumentos e a pose ensaiada ao chão. Isso mais umas passagens recíprocas de raspão pelos pés de barro do par de figurões foi o que consegui aproveitar do show. Nada de novo.

 

O que vejo no meio disto tudo é a confirmação de que a ausência de propostas concretas em benefício dos soundbites apelativos é um fenómeno generalizado e reflecte uma degradação do confronto político que, numa época conturbada, deixa a maioria dos eleitores sem respostas.

Embora a maioria já se mostre sem vontade de perguntar.

publicado por shark às 13:47 | linque da posta | sou todo ouvidos

Relaxem

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publicado por shark às 12:43 | linque da posta | sou todo ouvidos
Domingo, 25.09.16

A posta que depois logo se vê

Dediquei alguma atenção à ressaca do incêndio no Andanças, sobretudo porque depois de anos nos seguros percebi que a situação dos proprietários de viaturas danificadas era, não pelo motivo que quase todos julgam, muito complicada de resolver.

Obtive, na televisão, ao vivo e nas redes, a informação que ia sendo veiculada e rapidamente se começou a esboçar a habitual reacção inócua e mal dirigida da opinião pública, como dos media, contra os maus do costume: as seguradoras.

 

Dos vários pareceres de gente mais ou menos informada acerca da realidade manhosa da responsabilidade civil envolvida na resolução do problema, via apólice de seguro, destaquei um ao qual ninguém pareceu atribuir importância mas que, na prática, poderia sempre trazer um problema acrescido ao da já complexa atribuição de responsabilidades: os nossos ineptos legisladores transmitiram uma falsa sensação de segurança ao público quando tornaram obrigatório o seguro de responsabilidade civil para os organizadores de eventos como o Andanças mas não definiram um limite mínimo de capital a segurar.

Ou seja, o Andanças cumpriria a lei com um seguro igual ao do churrasco organizado pela administração de um condomínio.

 

Por esta razão, o insurgir colectivo contra as seguradoras, empresas privadas que dançam a música que a Lei toca e perante as quais se justificam algumas queixas mas nunca a esmagadora maioria, “obrigadas” por lei a aceitarem um risco que num país de baldas é sempre medonho, é prematuro (sem decisões definitivas passíveis de contestação) e acima de tudo mal direccionado pois é ao Estado que compete legislar na defesa dos interesses dos cidadãos e não apenas garantir qualquer coisinha em caso de azar.

Da leviandade com que se confia à iniciativa privada o bom senso de distinguir eventos com milhares de outros com dezenas de pessoas envolvidas, deixando em aberto o valor a segurar e sabendo-se como este altera substancialmente o custo de uma apólice, é que deveriam surgir as críticas. Contudo, já a maioria dava a causa como perdida para os proprietários de automóveis sem seguro contra todos com base na alegada má vontade da seguradora e ninguém apontava o dedo a quem tem o dever de definir as regras do jogo.

 

A coisa acabará no esquecimento, qualquer que seja o desfecho na atribuição de indemnizações aos incautos que acreditaram os seus bens acautelados num evento com tudo legalizado e devidamente aprovado.

E ninguém cuidará de se interrogar como seria, na óptica da apólice de seguro sem capitais mínimos impostos, se dentro dos veículos em chamas estivessem pessoas.

publicado por shark às 19:24 | linque da posta | sou todo ouvidos
Terça-feira, 20.09.16

Um velho incontinente a morrer sufocado por detrás das janelas fechadas

No momento em que escrevo estas linhas acabo de saber que começaram a construir mais um muro europeu, desta vez em Calais. Na fronteira entre duas antigas potências coloniais das várias que exploraram pessoas e recursos por todo o planeta, ao longo de séculos.

Ambas as nações, por coincidência ou não, estão directa ou indirectamente envolvidas nos acontecimentos que estiveram na origem do problema que decidiram emparedar, seguindo o exemplo de alguns países mais próximos dos locais de desembarque e de regimes extremistas tão desprezíveis como os que provocaram o último grande conflito europeu e mundial.

 

Toda a argumentação a que tive acesso até agora não justifica senão a realidade com que nos confrontamos: parte do Velho Continente está a mergulhar de novo nas mesmas políticas odiosas que quase o destruíram por completo num passado tão recente que ainda há gente viva para o contar na primeira pessoa.

O pretexto dos refugiados, perfeito para alimentar a trumpização europeia, surgiu em cena não como uma oportunidade para os europeus acertarem contas com o lado menos bonito da sua história, mas como um bode expiatório excelente para prolongar a negação da agonia dos sistemas democráticos ocidentais à mercê da crise financeira e social que nos atormenta.

Em vez de a Europa abraçar os valores de que tanto nos orgulhamos, acolhendo gente em aflição, estamos, a reboque de uma UE desorientada e em desmembramento, envolvidos na escrita de uma das suas páginas mais tristes.

A construção de muros, imbecil à partida, não é uma solução mas sim um tiro no pé daquilo que apregoamos representar. Nós, os bons da fita, os ocidentais que lutam para salvar o mundo do fundamentalismo, estamos a construir muros para impedir o acesso das suas maiores vítimas à respectiva salvação.

Muros. Com tudo o que representam para a Europa em particular, são, sempre serão, símbolos de um mal que aprendemos a identificar nessa condição. São ícones de tudo quanto os nossos avós juraram impossível de repetir nestas terras arrogantes e sobranceiras, depois de vencerem os bons, também à custa do sacrifício e da coragem dos antepassados dos maus como os tratamos agora e que lutaram ao nosso lado contra a ameaça nazi. São uma vergonha pelo que representam de negação de tudo aquilo que nos fez sonhar com uma federação europeia, pois muitos cidadãos europeus não se identificam com este acumular de pessoas nas fronteiras em condições miseráveis e ainda menos com este bater-lhes com a porta na cara.

Notem que não precisei até este ponto do texto de referir as questões religiosas que fundamentalistas dos dois credos se esforçam por enfatizar. Nem o islamismo professado pela esmagadora maioria dos refugiados, nem a cristandade de fachada dos que são cúmplices por omissão deste virar a cara a quem precisa.

E não precisei porque se trata de uma falácia. Fossem cristãos os refugiados e ficariam do lado de lá da vedação na mesma, por serem pobres, por serem muitos, por não fazerem parte deste eldorado que vamos destruir começando pelos alicerces, renegando a nossa cultura e a nossa forma de entendermos o mundo e entregando o poder às bestas incapazes de vislumbrarem um colapso associado a esta forma nojenta de proceder que nos dividirá, que arrasará a hipótese de um colectivo com base nas afinidades que os extremistas e os cobardes renegam por detrás dos seus paredões farpados.

A União Europeia é, neste momento da história, uma farsa. As divisões entre membros são cada vez mais óbvias e o Brexit é apenas um dos seus prenúncios, com tudo o que isso implica.

E os muros que agora permitimos erigidos no seu interior servirão, mais cedo ou mais tarde, para garantirem essa mesma separação.

publicado por shark às 22:20 | linque da posta | sou todo ouvidos
Domingo, 21.08.16

A posta medalhada

Surpreende-me o tom exaltado que, na maioria dos casos, suscita a minha mania de considerar um fracasso a não obtenção de uma medalha por parte de atletas que, alguns deles legitimados pelos resultados já obtidos, se afirmaram candidatos às mesmas.

Dessa exaltação destaco os pressupostos de que quem está de fora não tem o direito de criticar, pressuposto bizarro,  o de que quem critica não entende o mérito dos atletas e o de que, por critérios que não as medalhas, temos a segunda melhor participação de sempre nas Olimpíadas.

Desmontando a coisa: qualquer atleta, seja de um país como a China ou de um como a Etiópia, tem igual mérito por ter conseguido um objectivo só ao alcance de uma escassa percentagem de seres humanos. Depois podemos ou não enfatizar as condições que lhes foram dadas para lograrem um mesmo propósito. Mas isso já são detalhes, neste contexto. Eu sei que seria incapaz de obter tal desígnio, tal como presumo que alguns dos que obtive, embora inexpressivos por comparação, não estariam ao alcance de alguns atletas. Soa irrelevante, esta comparação, e é. Mas é o que está na base da argumentação para me descredibilizarem até no direito à crítica.

Por outro lado, ao longo do tempo que antecede as Olimpíadas, toda a gente sem excepção concentra a atenção num objectivo que é tido como o mais importante no valorizar da participação colectiva nesta competição: a obtenção de medalhas. Em Olimpíadas do passado ninguém se preocupou com as participações honrosas dos não ganhadores mas apenas com a figura de quem regressou medalhado/a. E isso nada tem de errado, precisamente por existirem três realidades que distingo na Olimpíadas: a de lograr a qualificação – nesta todos são ganhadores e já não precisam provar nada seja a quem for -, a de dignificar o país e transcender as melhores marcas pessoais e a de vencer competições ou, neste caso, pelo menos atingir o pódio.

Porque me parece importante concentrar nas medalhas o balanço da nossa presença nestes Jogos Olímpicos? Porque sempre foi, de facto, o instrumento de “medição” do sucesso ou do insucesso das delegações olímpicas na percepção de quem interessa (o grande público e os media). Nesta perspectiva, todos quantos por um lado veneram o cumprimento apenas parcial dos objectivos propostos pelos próprios atletas e por outro criticam a falta de condições que lhes são dadas para conseguirem ir mais além estão a fazer o jogo do Estado se este quiser manter tudo como está. Se temos, aos olhos da multidão e dos critérios que não as medalhas, a segunda melhor participação de sempre, queixam-se de quê?

E este último aspecto deixa-nos conversados quanto ao argumento de que quem não fez nada ao longo de quatro anos para lutar por melhores condições não pode exigir agora medalhas.

Nunca as exigi, mas alguém as prometeu.

 E daqui a quatro anos conversamos outra vez.

publicado por shark às 16:37 | linque da posta | sou todo ouvidos
Sexta-feira, 05.08.16

Pela porta pequena

Li algures que a moral é o conjunto de regras aplicadas no quotidiano e usadas continuamente por cada cidadão. Essas regras orientam cada indivíduo, norteando as suas ações e os seus julgamentos sobre o que é moral ou imoral, certo ou errado, bom ou mau. E a ética será o resultado de uma reflexão acerca da moral.

Sempre entendi o exercício do poder como uma actividade na qual a ética deve ser prioritária, no sentido de certificar acima de qualquer suspeita a prática de uma moral intocável na sua definição de prioridades. Ou seja, uma função ao alcance de poucos/as.

Quando está em causa a gestão dos destinos de um país ou a representação dos seus cidadãos na defesa de uma causa comum que é, aos meus olhos, sagrada, qualquer violação da moral vigente, qualquer desvio ao eticamente aceitável é um acto de traição. Ao país e aos princípios que devem prevalecer nas decisões de quem o governa.

Vejo como uma desonra a leviandade dos que ocupam o poder quando, escudados na impunidade garantida pelos próprios com legislação feita à medida, se deixam tentar pelas ligações perigosas, pelas influências manhosas de outros poderes perante os quais pela cumplicidade se tornam reféns. Não há excepções, não há perdões, há o imperativo moral de preservar uma Pátria da falta de carácter, de Sentido de Estado ou apenas da imaturidade dos seus decisores.

Existe apenas um caminho a seguir quando um responsável político se vê exposto na imoralidade e ainda que protegido das consequências legais pelo atrás referido: a demissão do cargo que ocupa a fim de evitar o contágio aos restantes e para servir de exemplo aos seus sucessores.

Não há paninhos quentes capazes de devolverem a credibilidade perdida por via de um acto ou omissão potencialmente lesivos dos interesses do Estado e, por inerência, de todos os cidadãos. E à perda da credibilidade, nem que apenas pela ingenuidade admitida e comprovada, está associada a perda do respeito indispensável a qualquer liderança.

Enquanto os responsáveis políticos não interiorizarem a moral a que estão obrigados no exercer de cargos com tamanha responsabilidade e que deveria orgulha-los em vez de nos envergonhar, não há códigos ou mesmo leis que as imponham nos bastidores onde acontece, ás escondidas, aquilo que nem chega ao conhecimento público até ser tarde demais para evitar o prejuízo.

E o maior deles, quando não se aplica pulso de ferro às escassas situações que caem no domínio público, é a própria democracia quem o suporta.

publicado por shark às 18:44 | linque da posta | sou todo ouvidos

Em dia não

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 Foto Shark

publicado por shark às 17:20 | linque da posta | sou todo ouvidos
Quarta-feira, 03.08.16

Sem marcas de travagem

Ias na boa, pela vida fora, sempre a direito, mais curva, menos curva. Velocidade de cruzeiro, dentro dos limites que te impõem porque se calhar não sabes tomar conta de ti. E dos outros que podes arrastar nos teus despistes.

Estavas a atinar. Seguias o caminho sem te meteres em atalhos. Sem arriscares os becos sem saída no final das estradas que levam a lado nenhum, atento aos sinais, certinho mapa fora, sempre nas linhas traçadas por quem já lá chegou. Porque se calhar perdias-te, vida complicada, cheia de desvios, percalços e tentações. E os outros que podem desencaminhar-te para as vias secundárias, tresmalhados do rebanho imobilizado no meio do trânsito medonho da vida como dizem dever ser.

Sempre com o pé em alerta, em permanente carícia ao pedal do travão. E a aceleração controlada, a vida tem vigilância instalada para caçar os mais apressados, aqueles endiabrados corredores que não respeitam as regras da circulação adequada numa vida como dizem dever ser percorrida desde o ponto de partida até outro ponto qualquer.

Na boa, vida adentro, sempre a direito por onde for permitido pelo código seguido por todos e por um. E esse és tu, cumpridor, olhos bem abertos à sinalização vertical mais os traços contínuos que são as linhas que nem podes pisar, sempre a direito pelo troço mais recomendado para atingir um objectivo volante, uma miragem circulante parecida com uma cenoura motorizada. Um ponto de chegada repleto de reticências e de interrogações.

Na vida a circular, no eterno retorno ao caminho mais indicado para chegar a algum lado, sem saber onde nem porquê. O pára-arranca forçado, a ilusão de mudança que afinal está sempre engatada na mesma posição.

Distraem-te estas congeminações quando te confronta pouco adiante uma inesperada bifurcação. Abrandas a passada para tomares a decisão mais acertada, pela esquerda ou pela direita, por ali ou por além, rejeitas o impulso instintivo de seguires por onde te apetecer porque a vida como dizem ser está reflectida nas indicações de terceiros, nas opiniões prioritárias de quem já por ali passou.

 

Ninguém buzinou para te avisar da traseirada, tinhas a vida quase parada e ignoraste as lições reflectidas nas suas memórias do espelho retrovisor.

Já estavas com o pé no acelerador quando se produziu a ocorrência. Tinhas decidido arriscar uma abordagem diferente, uma escolha inconsciente e desprovida de orientação, pela tua própria cabeça, pelo teu próprio coração, estrada fora até ver.

De mãos na cabeça pelo que sentes como uma injustiça, questionas a vida: não fazes sentido algum e isto prova que tenho toda a razão!

E ela, de passagem, sussurra-te:

Esqueceste-te de ligar o pisca, cabrão…

publicado por shark às 11:46 | linque da posta | sou todo ouvidos
Sexta-feira, 29.07.16

Visto de fora

Os outros, cada vez mais ininteligíveis, optam invariavelmente pelo excesso nas reacções estapafúrdias ou pelo defeito na ausência de quaisquer umas.

Quase todos os outros, na quase totalidade das circunstâncias, parecem empenhados em surpreenderem pela negativa quem lhes cumpre fazerem sentir-se alienígena. E são bons nisso.

Quando, na fase imbecil da sede de integração a qualquer preço, participava sem questionar, sem prestar atenção, os outros pareciam iguais a mim. Ou eu a eles. Cada qual com as suas peculiaridades, mas capazes de orientarmos as condutas, os hábitos e até as opiniões que não arriscávamos extremar nesse esforço para preservar os elos de ligação. A ilusão da pertença.

Contudo, às tantas os outros, quase todos, começam a revelar a tal propensão para a atitude inexplicável ou para o desleixo implícito na respectiva omissão. E a pessoa sente o apelo, a tentação desastrosa, para tentar ver de fora. O risco imenso de observar e em seguida racionalizar o que se vê, agora sob outra perspectiva.

Está tudo doido, conclui-se.

E esse é o primeiro passo na construção daquilo que entendemos como barreiras protectoras. Para evitarmos a ameaça dos outros, aparentemente capazes de nos arrastarem para o turbilhão dessa loucura que pela proliferação assume contornos de generalizada, aumentamos a distância, restringimos a tolerância, entrincheiramos as emoções nesse lado de fora daquilo que, dia após dia, sentimos como uma agressão.

Simulamos a integração na teimosia dos rituais e das ligações cada vez mais apenas obrigatórias. Aturo-te isso porque és da família, desculpo-te aquilo porque és um amigo, vou ao funeral da tua tia que nunca conheci porque trabalhamos em secretárias contíguas.

Fazemos parte assim. Na encenação de uma aceitação do outro porque tem de ser ou ficamos isolados numa vida tantas vezes hostil. E depois os outros reagem mal nessas péssimas alturas ou nem se dignam reagir. Não observamos isso de forma imparcial e isenta, porque fazemos parte da mesma realidade que o acaso cruzou e porque tentamos sem sucesso entender os porquês com base naquilo que queremos ou acreditamos ser e na nossa percepção dos outros cada vez mais desfocada. Ingénuos, ainda fingimos fazer parte nesse momento em que nos provam que já só conseguimos ver de fora.

A partir do interior de uma fortaleza construída com paredes e telhados de vidro, assente num chão frio e opaco que mantenha oculta a precariedade das suas fundações.

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publicado por shark às 10:43 | linque da posta | sou todo ouvidos
Quinta-feira, 28.01.16

A posta nos verbos de encher

Virei-lhes as costas porque às tantas quase as senti desleais. Sei agora que não mereciam tal interpretação, tão óbvia me parece neste momento a ausência das culpas que lhes atribuo, sem nexo, quando a vida me atiça para lhe retorquir.

Comem por tabela, afinal.

 

São, como quase sempre acontece a quem e ao que nos é mais próximo, vítimas dos estilhaços aleatórios de uma espécie de explosão com a qual se marca um momento de viragem. O combate é muitas vezes travado no interior e elas pouco mais podem do que aguardar pela hora de entrarem em cena e cumprirem o papel a que se entregam.

Sem mágoas, sem contas para acertar porque na prática são vinganças e isso elas não conseguem levar a cabo de forma consciente e voluntária.

São, como quase sempre acontece a quem e ao que nos é mais querido, injustiçadas pelas distâncias criadas com base num pretexto tão idiota como os que sustentam todos os afastamentos artificiais.

 

Senti-lhes a falta, todos os dias sem excepção, e nunca consegui colmatar a sua falta com panaceias de recurso que não passam de estratégias desorientadas por nem se reconhecerem nessa condição. Mas apontava-lhes o dedo enquanto instrumentos do meu desacerto, cúmplices involuntárias do destino que eu próprio ajudei a traçar no finca-pé nos valores que elas sempre me ajudaram a exprimir. Bodes expiatórios de circunstância, nada mais.

 

Agora, talvez porque me amem até mais do que faço por merecer, quase me pedem desculpa pelas pequenas traições para as quais as arrastei à bruta, forçando-as a serem arautos das minhas múltiplas zangas e indignações.

 

Algo embaraçado, tento recuperar uma relação sólida, porquanto construída por entre os escolhos que a vida semeia, como minas mais ou menos camufladas, ao longo do terreno que escolhemos pisar.

Celebro convosco a minha reconciliação com elas, as palavras que amo.

 

E o amor, todos o sabemos, é sempre uma coisa bonita de partilhar.   

publicado por shark às 20:21 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Quarta-feira, 21.10.15

A posta no nacionalismo sem tretas

Detesto quando algum português fala mal do seu país. Enoja-me.

Um país não é uma realidade instantânea e está, como cada um dos seus cidadãos em cada um dos grupos em que se integram, à mercê dos erros de quem gere os seus (nossos) destinos ou apenas os partilha e pode, em dado instante do tempo, padecer das consequências desses erros ou omissões.

Contudo, uma Pátria não é feita de instantes mas de todo um percurso que, no nosso caso concreto, tem muito mais do que nos orgulhemos do que o contrário.

 

Portugal não é uma merda, como leio e ouço com demasiada frequência. Pode estar uma merda, em determinados períodos da sua História, devido ao desacerto das suas lideranças temporárias, mas isso não é a mesma coisa. Isso é um problema pontual que devemos identificar e utilizar os meios ao nosso alcance para corrigir se entendemos o país como o nosso.

 

Não é, por vezes está.

 

E se para quem afirma que está existe a obrigação moral de lutar para o devolver à sua devida condição, para quem afirma que é só resta a porta de saída para as mais de duas centenas de alternativas.

publicado por shark às 18:48 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (1)
Sexta-feira, 05.06.15

A posta no saber de experiência feito

Ao longo da vida aprendemos, entre outras informações inúteis, que é possível existirem crápulas com bom fundo. Claro que é bem fundo e coberto pelo lodo resultante da acumulação, permanente, de uma forma ignóbil de estar na vida. Mas é bom. Enfim, suficiente para distinguir os crápulas num espectro que vai desde o imbecil incapaz de discernir o bem do mal ao maquiavélico capaz de dar cabo da vida de alguém só porque sim.

 

Conheci imensos crápulas ao longo do caminho e nem posso certificar-me alheio a esta camada cada vez mais numerosa de uma população desprovida de valores que a protejam do abastardar do comportamento.

Partindo do pressuposto de que ninguém é absolutamente mau, podemos quase desculpar os momentos menos bons de alguém caracterizando-os como excepções.

Mas não são. O crápula típico reincide, por muitas velhinhas que ajude a atravessarem estradas para gáudio dos mirones que lhe possam atestar a bonomia. Ser crápula pode ser fruto das circunstâncias, mas na maioria dos casos é mesmo uma característica da pessoa e impossível de controlar.

 

Um dos mecanismos de defesa de um/a crápula é o branqueamento artificial do seu carácter, estendido depois às suas acções. Sim, a pessoa acha-se sempre intrinsecamente boa e consegue invariavelmente colorir os actos e palavras mais ignóbeis com o manto piedoso da mentira, do encobrimento e da distorção. O crápula molda a realidade aos seus olhos porque é também demasiado cobarde para se assumir na condição.

E claro, as vítimas das suas indignidades são sempre pessoas más. É fundamental para o crápula comum posicionar-se do lado certo, o do bem, na sua mente incapaz de processar verdades incómodas. Ou pessoas melhores.

 

Conversa de merda sem aditivos

 

A única medida de protecção cem por cento eficaz contra um/a crápula é a distância (leia-se saída abrupta e definitiva da vida dessa pessoa), pelo que o maior terror de quem rodeia essa gente é ficar sua refém. Um crápula em condições nunca desperdiça um bom flanco desguarnecido para exercer a sua arte.

Em desespero de causa, muitos alvos dos crápulas optam pela aprendizagem da coisa para eventualmente combaterem o filho da puta com filho da puta e meio. Mas isso é como alimentar uma discussão idiota com uma pessoa burra: esta última arrasta-nos para o seu palco natural e não tardamos a sentir crescerem-nos as orelhas.

 

Por isso os entendidos na matéria recomendam, no lidar com o crápula mais comum – a pessoa apenas estúpida demais para perceber o que se passa à sua volta - o desprezo, puro e simples. Nada pior para um/a crápula do que ver-se desprovido de atenção para com as suas exibições de brilhantismo mesquinho, de poder oportunista ou apenas de apelo interior para a má onda. Só mesmo a ausência de relevância desarma o crápula pela escassez de motivação. O crápula gosta que lhe dêem luta, não é um necrófago.

E aprecia imenso que lhe dêem conversa, para recolher dados que possam conferir mais tarde realismo às suas elaborações mentais tão difíceis de defecar pelo exagero de esterco acumulado nas suas presunções.

 

O único combustível para a locomoção das ideias e das iniciativas de um/a crápula é a conversa de merda que alguém lhe alimentar.

E mesmo um crápula acaba por tornar-se inofensivo quando a conversa com as paredes lhe acarreta a tomada de consciência da sua estupidez e da dimensão do seu equívoco e consequente solidão.

 

Quando a soma dos vários desprezos lhe matam a má onda pela subnutrição.

publicado por shark às 22:41 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)
Domingo, 12.04.15

Fim de tarde

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 Foto: Shark

publicado por shark às 20:56 | linque da posta | sou todo ouvidos
Sábado, 11.04.15

Da cobardia e outros pretextos da treta

Existem situações criadas por terceiros que me fazem hesitar entre o reconhecimento de uma limitação conjuntural (a cobardia que se sobrepõe ao paleio, por exemplo) e o diagnóstico leigo mas perfeitamente justificado de alguma forma de perturbação mental.

Das poucas pessoas que permitimos próximas esperamos, em condições normais, uma atitude inspiradora de confiança, que transmita a segurança que só os mais chegados nos podem garantir. E isto aplica-se qualquer que seja a natureza do vínculo estabelecido.

É precisamente esse detalhe no estatuto das pessoas (ditas) próximas que nos apanha sempre de surpresa quando é desmentido: se dos “de fora” esperamos tudo, dos “nossos” sabemos com o que contamos. E qualquer falha grave nesse pressuposto é quase sempre entendida como nada menos do que uma traição.

 

Para garantirmos alguma estabilidade emocional e até a valiosa sanidade mental tão ameaçada por hordas de gente chanfrada, se queremos de facto poder contar com alguém, há dois tipos de pessoa que devemos manter à distância: os cobardes, porque desertam; os malucos, porque são imprevisíveis. Pior de tudo, o misto destas duas categorias que garante, ao virar da esquina, uma reacção cobarde, deselegante e por isso hostil e, por via da loucura implícita, quando uma pessoa menos a espera.

 

É difícil identificar um/a cobarde, pois são sempre muito dados a pintarem-se capazes deste mundo e do outro e só se desmascaram quando confrontados/as com uma dificuldade ou um aumento da pressão.

Porém, uma pessoa desequilibrada acaba sempre por dar eco das suas perturbações. Aí o nosso mal está em acharmos sempre que a ligação alegadamente próxima nos permite dar a volta ao problema. Pois, tem um discurso incoerente com a acção e parece andar ao sabor do vento. Mas como gosto muito da pessoa vou ignorar esse sinal de demência e acreditar que a pessoa não negligencia a medicação. Erro crasso.

 

A pessoa que não joga com a equipa toda não controla as emoções, da mesma forma que não tem mão sobre os instintos e os raciocínios. É capaz do melhor e, cedo ou tarde, do muito pior. Se ainda por cima é cobarde, é garantido que à primeira contrariedade se esgueira para debaixo de uma pedra qualquer no sentido de escapar ao excesso de pressão. É esse o apelo natural num/a cobarde, o da deserção. E fazem-no sempre à bruta, de surpresa, de uma forma invariavelmente deselegante e estapafúrdia.

 

Ao longo de quase cinquenta anos de vida, várias pessoas com o perfil e os actos acima descritos cruzaram o meu caminho e, sem excepção, traíram-me no que mais valorizo: a confiança nas poucas pessoas em quem a deposito. E quase sempre associaram, na deselegância da sua fuga mal justificada, a absoluta falta de respeito pelo tal estatuto de pessoa próxima que, posso afiançar, não garante coisa alguma em matéria de certezas.

 

Garante, isso sim, a combinação perfeita para que nunca mais queiramos ver essas pessoas pela frente enquanto ficamos, desilusão somada, entretidos a cicatrizar aquilo que nos deixaram nas costas.

publicado por shark às 00:08 | linque da posta | sou todo ouvidos
Segunda-feira, 06.04.15

A posta no cavalo errado

Já soam lá fora as pancadas da vida determinada em forçar a sua entrada pela porta das traseiras, uma vida sem maneiras quando entre a sorte e o azar decide, caprichosa, optar pelo mal que nos possa atingir.

A porta que não aceitamos abrir mas a vida arromba com aríetes poderosos, com acontecimentos dolorosos ou com a chave deixada sob o tapete para onde varremos as lágrimas clandestinas, a da porta de acesso ao sótão onde escondemos fragilidades que ela tão bem sabe explorar.

A chuva aproxima-se das janelas com ganas de as esbofetear, ajudada pelo vento que é cúmplice de circunstância, deixado na ignorância acerca do que a vida decidiu seja para quem for. O vento nem sabe se a vida quer acabar com um grande amor só porque sim. A própria vida tem um fim e não se compadece de ilusões de eternidade, vai moldando a realidade de acordo com os seus humores.

As pancadas aumentam os temores e vão quebrando a resistência, a vida tem consciência do quanto dita as regras do jogo no tabuleiro que disponibiliza. É assim que confraterniza com as pessoas que entende como peões. Um passo em falso, pequenas hesitações, escolhas impossíveis como respostas exigidas sem perguntas que as suscitem.

A vida não gosta que a piquem com uma felicidade excessiva, torna-se muito agressiva e pode mesmo perder o controlo. Nas suas leis não existe dolo porque quase tudo acontece sem explicação plausível, a vida pode ser terrível mas não tem maldade intrínseca e por isso todas as vidas morrem solteiras na culpa. Sem maneiras, à bruta, uma vida invade o seu território e impõe o recolher obrigatório das emoções positivas.

A vida está sempre à espreita de pessoas que se acreditam felizes para sempre, de espaço preenchido por gente que sem sentido se confia ao que o destino determinar.

Sob os escombros das certezas arrogantes jazem as ruínas fumegantes de muitas ilusões construídas afinal sobre o que parecia um quintal e se tratava de areia movediça.

E a vida construtora é também demolidora quando se arma em metediça.  

publicado por shark às 23:20 | linque da posta | sou todo ouvidos
Quinta-feira, 02.04.15

Pelas ancas

Já o passeava pelo rosto quando se sentiu ansiosa pela sensação de se deixar agarrar pelas ancas, de se entregar indefesa ao poder daquele homem que sabia capaz de alternar o toque suave de uma pluma na sua pele, dedos de pianista, com a força indomável de um macho dominador.

Afastou-se devagar e deixou-se tombar no sofá, ajoelhada no chão, tentadora, à espera da sua investida avassaladora que não tardaria a acontecer.

 

Sentiu-lhe o calor enquanto ele a sondava com pequenos toques que lhe dava, como que a pedir licença para entrar, as mãos a percorrer as costas até ao fim, as nádegas agarradas com firmeza, afastadas com gentileza para a poder observar, linda como lhe parecia em qualquer parte do corpo e em qualquer posição, as ancas transformadas em alavancas e ele cada vez mais dentro e ela cada vez mais fora de si.

 

Depressa ou devagar, ele não parava de a comer transmitindo-lhe a confiança de um conhecedor, fodia-a sem deixar de fazer o amor que lhe transmitia com a boca que a cobria de beijos na nuca e na face que ela lhe oferecia para se fazer arranhar pela barba por fazer que a excitava.

E ele não parava de lhe mostrar o quanto a desejava, vigoroso, joelhos pousados na beira do sofá, mãos livres para a tocar como tão bem fazia e para a agarrar com a força que lhe conhecia, enquanto ela o estimulava com uma mão que o acariciava, braço esticado por baixo para o alcançar, rosto comprimido num pedaço de tecido coberto de suor.

 

Mais intenso e ainda melhor, o momento da pausa provisória, quando escreveram em simultâneo o final daquela história.

 

publicado por shark às 19:43 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Terça-feira, 24.03.15

Para não emudecer

Em poucas palavras.

Apenas as bastantes para comunicar por breves instantes as coisas que não podem ficar caladas. Para lhes justificar a existência, palavras imbuídas da prudência que lhes é recomendada para poderem ser ditas sem prejuízo de algo ou de alguém.

Para as tornar indispensáveis mas nunca maçadoras e sempre cheias de razão.  

Para salvar as próprias palavras da ameaça de extinção.

publicado por shark às 23:07 | linque da posta | sou todo ouvidos
Quarta-feira, 18.03.15

Tiros no escuro

Apenas o anseio e a esperança, o receio de que uma cega confiança possa induzir uma euforia que venha a produzir uma desilusão profunda no futuro de qualquer amor. O risco a correr de olhos fechados, sempre a esquecer desgostos passados que sabemos injustos quando assumidos como lições.
Afinal as emoções são formatadas de acordo com o perfil de cada pessoa, seja má ou seja boa, mais a experiência de um presente onde o futuro se esboça e o passado que não se esqueça nunca arranja lugar.
A vontade de ultrapassar hesitações por muito que se encontrem razões em sentido contrário num percurso temerário pela aventura emocional, um impulso irracional que nos move para diante, um sobressalto constante que nos realça a dimensão das coisas do coração numa vida que valha a pena.

A entrada imprevista em cena da paixão protagonista que altera o guião e obriga a esquecer as reservas que possamos ter, amnésia necessária para impedir que a nossa história influencie de forma prejudicial e intuímos fundamental para dar uma oportunidade ao amor de verdade, à maneira, que só assim se faz.

Sem lhe pregar uma rasteira por estarmos sempre de pé atrás.
publicado por shark às 00:04 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (5)
Terça-feira, 10.03.15

Imagina tu

Imagina um amor tão forte que consegue eliminar o segredo, não deixando à mercê da sorte, do ciúme que não passa de um medo, o futuro talhado agora pela determinação com que bate o teu coração agitado pela energia de mil beijos já dados e outros tantos ainda por dar.

Tenta ao menos acreditar que é viável essa entrega incondicional, que é possível renegar o mal expurgando dessa ligação a indecência de julgares excluída a cedência como um elemento fulcral para o amor que pretendas imortal, ignorante daquilo que só quem experimentou saberá explicar.

Talvez consigas apanhar melhor a ideia se eliminares em ti a barreira de pressupostos, se deixares cair os preconceitos que te levam a desdenhar a emoção que não consegues sentir como a descrevem os que sabem de que é feito afinal o amor de que falas porque ouviste contá-lo assim.

Talvez não comeces pelo fim os amores que matas à nascença por impores a desconfiança ou o silêncio comprometedor que inquina, o segredo, transformando cada passo numa mina potencial. Concentra-te no essencial, no objectivo comum em que dois não são a soma de uns mas antes o resultado de um amor que é moldado em função das características que não podes querer anular no outro que tratas como teu.

Procura o caminho para o céu garantido como contrapartida por abraçares um amor para toda a vida, mesmo que receies e tentes proteger a tua resistência contra a agressão como sentes cada desilusão que às tantas podia ser evitada se tivesses essa barreira construída por forma a não impedir esse amor de atingir a fasquia que acreditas ser a ideal.

Desiste de fingir, não é bom, não é normal, uma vontade que não consegues reunir de tão armadilhada pela tua tendência arriscada para o faz de conta, a suspeita que se levanta quando entras em contradição porque não ofereces o coração sem a tutela da cabeça.

Não deixes que isso te impeça de correres o risco que vale a pena, a paixão prolongada pela confiança depositada em quem corresponda ao teu esforço, ao teu empenho, numa relação alheia ao engano que a possa trair.

Alia a esse amor a amizade que pode unir as pontas soltas que vais deixando no coração, a dada desgosto, a cada traição como encaras todas as vezes em que te deparas com algo que pretendeste abafar, a verdade que acaba por ficar à superfície da pessoa que quiseste mudar em função das tuas exigências, sem admitires quaisquer cedências ou compromissos reais que fazem parte do respeito que também entra na equação na hora de acertar as agulhas a dois.

 

Imagina um amor tão forte que não possa jamais ficar exposto à mentira que o corrói, à cobardia que tanto dói quando revelada pela indiscrição de um simples lapso ou de um nome muitas vezes repetido durante um sonho que partilhas, sem querer, com o amante acordado a quem tentaste esconder essa tua hesitação que um amor a sério, eterno, encaixaria no perdão ou na sua persistência, na sua infinita resistência contra as pequenas fissuras que urge reparar com a frontalidade que te possa poupar à imagem que tanto rejeitas mas acabas por assumir.

 

Decide de uma vez para onde queres partir em cada viagem, reúne toda a coragem necessária para poderes mudar a história triste que insistes em reescrever sempre igual enquanto sentes o tempo a passar rumo ao final das hipóteses de viveres uma experiência que poderá um dia deitar-se ao teu lado sem que o percebas e siga o seu caminho.

 

Até ao dia em que pouses o olhar envelhecido nesse tempo mal perdido e te reste imaginar aquilo que podia ter sido se te imaginasses, nessa altura, agora, num dia de sorte, um amor tão forte, tão bom de sentir, que nem a tua alma esquiva consiga desmentir.

publicado por shark às 23:57 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (15)
Sexta-feira, 06.03.15

Diz farsa

Mascara as emoções com palavras que prometam ilusões das que encantam quem queiras embalar numa navegação sem rumo traçado, leva quem quiseres a qualquer lado em sítio nenhum, aplica à verdade um rigoroso jejum e tenta desviar a atenção do que te vai na alma ou no coração com um sorriso ensaiado, com um assunto preparado para camuflar tudo aquilo que pretendas ocultar nos bastidores do cenário por ti criado, desse perfil por ti desenhado em traços toscos nas palavras e nas acções que te permitem preservar a realidade na segurança máxima da discrição.

E se a tua privacidade sofrer uma violação com uma pergunta complicada que alguém te faça, não digas mais nada. Disfarça.
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publicado por shark às 22:27 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)

Muito para além de ti

Um nome.

Duas datas.

Um espaço em branco.

 

E o silêncio em redor de tudo aquilo, como se fosse preciso calar a vida para lá dos muros bem altos que o cercavam agora.

Muros brancos, muros limpos de palavras, silenciosos eles também como guardiães de um território que era terra de ninguém quando a noite aparecia e fechavam os portões à vida que os visitava, os nomes, as datas e os espaços em branco que durante o dia muitas pessoas tentavam ali preencher, com lágrimas, com sorrisos, com memórias, com emoções que eram histórias por contar.

 

Um nome.

Duas datas.

 

A pessoa arquivada no ficheiro terminal, o dia do início da caminhada mais o dia da transição final. Ou talvez não. E entre esses dias toda uma vida que é agora o espaço em branco entre datas que contraria a escuridão que a saudade obriga a pintar.

Mas cada lembrança é um pedaço de cor, um conjunto de palavras que podem ser gravadas na pedra com o cinzel da imaginação.

Histórias de vida com nome e com rosto, lágrimas e sorrisos, memórias e emoções acontecidas lá fora, para lá daqueles muros brancos que a noite escurecia como se a luz tivesse naquele lugar o mesmo efeito perturbador que o som.

 

Um nome.

  

Escrito com tinta preta mesmo por cima do espaço (em) branco onde ninguém conseguiu resumir tudo aquilo que se passou com aquela pessoa entre as duas datas que a identificam enquanto pedaço de tempo com um princípio e com, talvez, um fim.

O amor que lhe dedicaram, os ódios que inspirou. Tudo aquilo que se passou entre datas, experimentado por quem lembra e por quem já possua também duas datas depois do nome e de um espaço por preencher com o desgosto de uma mulher ou de um homem esmagados com o fardo de resumir o que aquela pessoa valeu, tudo ou nada, agora que se perdeu, num espaço reduzido que não serve o propósito quando a pessoa em vida se agigantou entre a data que marcou o início da jornada e a data em que acabou a estrada que aquela existência percorria.

 

E para contar a sua história, um só livro não bastaria.

publicado por shark às 10:33 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)
Quinta-feira, 05.03.15

A posta no fogo que arde

Uma das coisas que aprendemos logo ao início da nossa percepção das coisas é o facto indiscutível de a vida nos dar lições. Essa mestra invisível bem cedo nos ensina que devemos evitar as esquinas dos móveis com a cabeça, tal como explica de forma clara e sucinta o quanto é verdade aquilo que os progenitores dizem do fogo.

Queima a valer e dói que se farta, aprender assim. Mas o método de ensino é muito eficaz e existe progressão na aprendizagem, pois a mesma cabeça que nos avisa que devemos protegê-la das esquinas pontiagudas continua pela vida fora a relembrar-nos lições que deixamos escondidas nos bastidores da memória.

 

É disso que se faz a história da vida de alguém. De lições. De aprendizagem que podemos utilizar a nosso favor ou ignorar e cometer o maior dos erros que é repeti-los. Esse facto pode até, aliás, considerar-se uma raposa. O erro de palmatória clássico corresponde a uma reprovação, pois até a vida percebe que só um burro incorre na asneira de ir segunda vez à caixa de fósforos depois da primeira queimadura.

 

Contudo, e a vida é um permanente porém, as turmas dessa escola exemplar congregam multidões de asnos capazes de darem cabo da vida por não lhe respeitarem as lições. Somos, esse grupo de cábulas, eternos repetentes. Nem conseguimos interiorizar a diferença entre errar muito, mas diferente (aprende-se sempre qualquer coisa) e errar muito e sempre estupidamente igual.

 

Depois um dia a vida esfrega-nos nos olhos a matéria, a lição mal estudada no passado é repetida num qualquer agora. A ver se o aluno retém qualquer coisa e acorda.

Quantas vezes a aula onde estivemos mais desatentos vem a revelar-se a mais valiosa para ultrapassarmos os testes que a vida nos marca…

Marramos (contra o comboio de Chelas, se necessário) até conseguirmos fixar parte da matéria que possa, pelo menos, garantir a positiva. Fazemos cábulas como saída de emergência para uma branca daquelas que os nervos nos dão e mostramos ter aprendido a lição, concentrados o bastante para decifrar os sinais que nos recordam os erros do passado que urge não repetir.

 

E tantas vezes o único erro é insistir.

publicado por shark às 23:58 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Quarta-feira, 04.03.15

O tempo passou por aqui

o tempo passou por aqui.jpg

 Foto: Shark

publicado por shark às 22:09 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Segunda-feira, 02.03.15

O homem que foi visto à distância

Viu o homem à distância, nadando em alto mar sem rumo certo. Parecia procurar a costa de uma ilha deserta imaginária, nadando como se fosse possível alcançar algo naquele azul esverdeado sem fim que a vista lúcida vislumbrava.

Mas no olhar daquele homem brilhava apenas uma esperança insana, uma fé postiça, uma espécie de loucura mascarada de outra coisa qualquer. Via-o com nitidez, a cabeça mais os braços e o constante chapinhar de quem nada por nada ter a perder.

De repente viu o homem desaparecer. Levantara ambos os braços, desistente, como se de repente algo o tivesse arrancado daquela fantasia que ele nadava enquanto vivia na ilusão de alcançar o infinito impossível.

Deixou-se afogar, permitiu-se desertar do sonho interrompido à bruta por uma vaga imensa de lucidez.

publicado por shark às 23:28 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)

A posta na questão dos princípios

Todos temos limites para o que estamos dispostos a aceitar. Sendo uns mais flexíveis que outros, tentamos ainda assim preservar intactas algumas fronteiras que nos protejam das agressões do exterior como as entendemos quando violam de forma grosseira a tal linha que separa o aceitável do impossível de tolerar.

É um direito que temos por adquirido, o de impormos um ponto a partir do qual não estamos dispostos a ceder por nada e por ninguém. Sob pena de abdicarmos de nós mesmos num processo de cedências excessivas.

 

Raramente os outros sabem respeitar esses limites, preferindo esticar os seus até para lá da linha invisível a partir do qual nos perturbam. É comum e só não assume proporções desastrosas quando quem vai longe demais reconhece o seu lapso ou abuso e repara o mal feito. Com um simples pedido de desculpas, depois de corrigido o erro assumido, qualquer pessoa acaba por esquecer o sucedido.

Todavia, não é esse o caminho seguido pela maioria. Fingem não entender o que está em causa, preferindo defender a bonomia das suas intenções. Nada de mais errado, pois ao fazê-lo pretendem legitimar, por exemplo, faltas de respeito que alguns não encaixam.

Essas pessoas negligentes só percebem a dimensão do equívoco quando sentem na pele o mesmo ferrão que antes tentaram desvalorizar por ser o seu.

 

Esse esfregar da realidade dos factos na cara de quem os subestima quando lhe convém não é uma vingança mas uma reposição do equilíbrio necessário nas relações. Os limites passam a ficar claros nas palavras e nos actos de quem fingia não perceber a dimensão da sua asneira. Ou então as relações soçobram por falta de sustento, por falta do respeito que deve presidir em qualquer domínio das relações humanas.

A leviandade na atenção a estes detalhes que a todos nos compõem tem sempre um preço: a humilhação da pessoa desrespeitada nos seus limites mais sensíveis. E depois há quem engula em seco e se deixe ir adulterando no carácter, pelo amor a algo ou a alguém ou apenas por obrigação, como há quem reaja de forma mais enérgica.

Há aqui uma relação clara de causa-efeito cuja ordem não é arbitrária: há quem lança a primeira pedra e quem leva com ela e a devolve como troco.

 

No cerne da questão está a dificuldade em alinhar comportamentos com a tolerância de quem pretende fazer parte de uma outra existência que não a sua. E o equilíbrio é sempre a resposta.

E quando essa falha só restam perguntas difíceis e, logicamente, relações muito mais desequilibradas.

 

Ou nenhumas.

publicado por shark às 22:45 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)

Sim, sou eu...

Mas alguém usa isto?

 

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