Terça-feira, 04.04.17

Um luxo de condição

Num país “de Esquerda”, um residente em Sacavém viu-se obrigado a dirigir-se a Loures para se inscrever no centro de emprego (o de Sacavém foi encerrado tempos atrás).

Um desempregado, sobretudo sem direito ao subsídio de desemprego, pode não possuir um meio de transporte próprio, pelo que tem de recorrer aos transportes ditos públicos. Custa 3,30€ a ida e outro tanto a volta, pois fazer tantos quilómetros a pé com uma serra de permeio é coisa para dar cabo do único par de sapatos em condições da pessoa.

Ou seja, o desempregado paga 6,60€ (parece pouco, mas em certas condições não são trocos) para aguardar cerca de uma hora a ouvir os dramas pessoais de outros inúteis presentes na sala, enquanto aguarda que saia o seu número na rifa. É um espectáculo caro, tendo em conta.

No final desse mergulho no que a sociedade tem de mais desanimado, o desempregado de Sacavém fica a saber que, desde Fevereiro, para se inscrever na qualidade precisa de fazer marcação prévia.

Fica também a saber que vai ficar mais uma semana sem soluções à vista, finda a qual terá de pagar mais 6,60€ de viagem para proceder à referida inscrição que, de resto, não lhe garante coisa alguma.

São 13,20€ ao todo, num país “de Esquerda”, só para alimentar uma pequena esperança.

E depois os cidadãos com emprego dizem que é caro ir ao cinema.

publicado por shark às 20:59 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (5)
Segunda-feira, 03.04.17

Sem luz ao fundo

tunel sem luz ao fundo.jpg

 Foto Shark

publicado por shark às 23:52 | linque da posta

A posta perdida

Ajudar quem precisa não pode, não deve, ser um gesto interesseiro a qualquer nível. Nem mesmo basear-se no pressuposto da retribuição posterior, algo que torna qualquer acto de generosidade num simples investimento a prazo, numa atitude capitalista.

 

O apoio a quem, por qualquer motivo, vê a vida afundar-se em conjunturas aziagas é, deve ser, um impulso espontâneo daqueles que nos distinguem enquanto seres humanos dignos desse nome. E não implica retorno ou qualquer tipo de reconhecimento. As medalhas devem sentir-se recebidas na confirmação do impacto positivo que se tem na existência dos outros, na satisfação do dever cumprido em matéria de construção de um mundo melhor.

Contudo, é legítimo ambicionar que esse mundo no qual, ainda que a um nível micro, se contribua com o melhor de nós mesmos para valer aos outros nas suas fases piores desenvolva o gosto por se disponibilizar da mesma forma. Por se provar melhorado, por contágio.

Infelizmente, não é assim que a coisa funciona no primado do cada um por si. Independentemente da postura que alguém assuma ao longo da vida, nenhuma garantia daí sobrevém de poder contar seja com quem for nos momentos menos bons. Pode esperar-se, isso sim, a habitual hipocrisia dos falsos preocupados, a palmadinha nas costas que apenas traduz a sua satisfação por não partilharem as mesmas aflições e não se materializa em porra alguma de positivo.

De resto, o conselho que é dado a quem padeça de algum tipo de fragilidade é que a esconda, que não revele em momento algum a fraqueza que, na prática, apenas serve como sinal de alerta para quem se sinta potencialmente alvo de pedidos de ajuda, essas maçadas como a maioria as entende no conforto de uma vida estável e abastada.

Aos indicadores típicos da mó de baixo como o povo a tipifica sucede-se a debandada mais ou menos apressada, mais ou menos óbvia de quem se vê demasiado próximo de alguém que mergulhe no inferno da decadência. O que valemos é o que temos e quando não temos assumimos o estatuto de assombrações. Negar esta evidência é confirmar o seu pressuposto, é exibir ignorância acerca de como a vida das pessoas pode tornar-se insuportável sob a pressão inerente aos fracassos ou mesmo aos azares que podem atingir qualquer um de nós.

De pouco interessam os passados quando os presentes denunciam futuros pouco risonhos. Não somos o que fomos, mas apenas o que se presume viremos a ser com base naquilo que temos para mostrar de nós em dado momento. De nada vale, sequer, o tipo de pessoa que escolhemos ser. Bons ou maus, o tratamento reservado aos que tropeçam é o mesmo: o de se levantarem do chão ou de lá permanecerem inteiramente por sua conta. Qualquer excepção a esta regra, a verificar-se, implica algum tipo de moeda de troca, de cedência, ou mesmo de humilhação.

Ninguém dá nada a ninguém, é um facto universal, um dado adquirido da sociedade moderna de que tantos se orgulham quando, na verdade, a maioria deveria a cada momento envergonhar-se.

E a vergonha na cara deveria bastar para que quem investe na caridadezinha de circunstância, feita de palavras ocas ou de gestos interesseiros, não acrescentasse, à desilusão de quem precisa e nada recebe, o nojo de quem também perde na aceleração das agruras da vida o travão piedoso para o excesso de lucidez.

publicado por shark às 23:36 | linque da posta
Quarta-feira, 15.03.17

Portas de saída

No espaço de alguns dias, uma mulher e um homem suicidaram-se em Portugal por motivos cada vez mais comuns na nossa actual realidade. Ela, por estar na iminência de uma acção de despejo; ele, aparentemente por estar a sofrer o que sentia como uma humilhação no local de trabalho (acabando, de resto, por se matar na dependência do banco onde exercia funções).

Estes dois exemplos de uma modernidade indesejável, marcada por uma crise sem fim à vista, ilustram o grau de desespero que as pessoas, quaisquer pessoas, podem atingir quando submetidas à pressão esmagadora inerente a um trambolhão social.

 

Aquilo a que chamamos sociedade, corroída por algumas décadas de franca expansão do individualismo, está a tornar-se numa ameaça para os cidadãos apanhados em falso pela vida. Com ligações de amizade e até familiares cada vez mais reduzidas ao cumprimento de rituais, à manutenção de aparências, as pessoas interagem cada vez menos e fragilizam-se cada vez mais. Num contexto de crise, nomeadamente nos grandes centros urbanos onde as relações de vizinhança se resumem a encontros de raspão nos ascensores, indivíduos e pequenos núcleos familiares são triturados sem dó pelas eficientes máquinas públicas e privadas que tudo fazem para transformar cobranças difíceis em punições para quem, com ou sem culpa no cartório, fraquejou ou se tornou no dano colateral de uma redução de custos qualquer.

 

 

Na ressaca dos anos 90, ao longo dos quais foi incutido na população o sedutor conceito do empresário em nome individual, muitos abandonaram empregos para criarem o seu. Foi o tempo dos diesel com dois lugares, das urbanizações de luxo ao alcance do cidadão de classe média, dos empréstimos fáceis sob pretextos absurdos (até para as férias ou a compra de acções) e sempre sob o pressuposto de uma prosperidade futura, garantida por via do milagre comunitário dos euros aos milhões.

Esse numeroso grupo de arrojados empreendedores foi dos primeiros a sentir na pele o desabar das ambições desmedidas, quando os pequenos negócios construídos por amadores entusiastas com base no recurso ao crédito e/ou no esbanjar das suas poupanças empurraram boa parte de novo para o mercado de trabalho, já em queda, e deixaram os restantes em aflição e a empurrarem os problemas com a barriga ou mesmo a terem de recomeçar do zero. Ou do menos qualquer coisa.

 

A primeira década do século XXI conheceu, já perto do final, a explosão das várias bolhas que a bebedeira de uma prosperidade a qualquer custo criou. E custou, imenso, mesmo a quem, com emprego estável ou rendimentos elevados, assumira compromissos que a própria banca ou entidades para-bancárias filtraram como razoáveis antes de ser pela primeira vez divulgado o nojento chavão do viver acima das possibilidades. O bode expiatório da crise passou a ser o cidadão incumpridor, com consequências devastadoras não para quem é caloteiro ou malabarista mas sim para quem, com vergonha na cara, não possui estrutura emocional ou psicológica à altura da dignidade dos seus princípios.

A sociedade em aflição do cada um por si tolera sem esforço o fim social dos seus membros em desgraça, desertando sem cerimónia das vidas estragadas que são guerras perdidas e aceitando as desculpas de maus pagadores de quem em boa medida os criou: o sistema financeiro aldrabão e o Estado seu refém, com a parceria consolidada por vários políticos que, não por acaso, estiveram ligados à destruição da banca que tanto endividou o país. Desamparados e fragilizados pelas consequências nefastas desta conjugação de factores, milhares de cidadãos contagiaram os mais próximos com as suas perdas, quem a estes podia recorrer, enquanto outros, isolados, viram as vidas viradas do avesso pelo sistema criado para os pressionar e espremer ao primeiro sinal de incumprimento. Ou ainda antes, no posto de trabalho cada vez mais precário num tempo de flexibilidade laboral desmesurada.

 

É deste grupo de párias como nos fazem sentir que faziam parte o homem e a mulher de que vos falei à entrada. Escolheram uma das poucas portas de saída.

publicado por shark às 23:53 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Sábado, 25.02.17

É que é mesmo isto

"Vi o Tolan uma vez. Tenho ideia que o vi da janela num daqueles autocarros de dois andares da Carris. Cheguei oficialmente àquela idade em que conto coisas que só fazem sentido a preto e branco."

 

Há muito mais de onde o de cima veio, no Em Linha Recta.

publicado por shark às 20:41 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Quinta-feira, 23.02.17

Imóvel

Cada saída uma miragem. Como numa espécie de labirinto em circuito fechado. Caminhar sem saber onde, respirar sem saber como, percorrer caminhos sem chão.

Uma estranha sensação de anestesia inoculada gota a gota, dia após dia, no frémito inicial da barata tonta buscando a salvação à cabeçada.

Cada saída uma entrada. No mesmo ponto de partida. Sem a ilusão de uma chegada.

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publicado por shark às 13:02 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Sexta-feira, 17.02.17

Alvorada alfacinha

bolinha.jpg

 (foto Shark)

publicado por shark às 09:47 | linque da posta | sou todo ouvidos
Quarta-feira, 11.01.17

A posta nas duas faces da moeda

Sou a favor do tomar partido. De causas como de pessoas, sem meias-tintas ou ambiguidades. Com a frontalidade de quem assume as suas convicções que se traduzem em posições que as consubstanciam. Sou a favor da sinceridade em detrimento da atitude sonsa disfarçada de independência, de uma falsa equidistância que apenas serve o propósito de obter, junto de quem se ludibria, mais trunfos para o que ou quem se apoia.

Em nada censuro quem avança na defesa de algo ou de alguém, na escolha que pareça acertada quanto à razão implícita ou ao coração sem nada a esconder. A vida é mesmo feita de escolhas e nada de censurável existe em quem não hesita assumir as suas por ser essa a decisão que corresponde à verdade como a interpretam ou distorcem.

Sim, sou a favor da verdade.

 

Mas também sou a favor da consequência.

publicado por shark às 20:14 | linque da posta | sou todo ouvidos
Quinta-feira, 15.12.16

Viragem

o mar no ceu.jpg

 (foto Shark)

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publicado por shark às 14:59 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)
Quarta-feira, 16.11.16

Ilha deserta

Cada quebra de confiança acrescenta uma etapa numa forma de tristeza permanente que conduz, inexoravelmente, ao degredo voluntário na segurança que só se sente garantida pelo refúgio na solidão.

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publicado por shark às 20:39 | linque da posta
Sexta-feira, 28.10.16

Outons

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Foto: Shark

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publicado por shark às 19:22 | linque da posta | sou todo ouvidos

Em águas de bacalhau

Ao contrário dos peixes, nós humanos possuímos os mecanismos de defesa necessários para evitarmos o anzol. Ou melhor, temos apenas um: a inteligência. Mas coadjuvada pela memória que nos permite aprender lições pela lembrança dos nossos erros (ou dos outros), pela intuição que nos alerta para as ameaças latentes e pelo bom senso que, por exemplo, nos diz que não há almoços grátis e recomenda cautela antes de fincar o dente nas ofertas inesperadas.

Todavia, à semelhança dos peixes, nós humanos somos inevitavelmente atraídos por engodos de todo o género. Mesmo do género dos que já antes nos tramaram ou a alguém próximo. A inteligência que deveria proibir-nos o mergulho na asneira (ou mesmo na sua repetição) nada pode fazer contra a força tremenda dos iscos concretos ou imaginários que a vida nos proporciona.

Nem só as criaturas marinhas morrem pela boca. E os humanos somam à irreflectida dentada na minhoca milagrosa, estranhamente ali pendurada pelo acaso ou por um deus, o uso complementar da boca para, por exemplo, falarem demais. Ou seja, não é ao fecharem a boca mas sim ao abri-la que o anzol os apanha.

Nos seus momentos de lazer, ao destino basta sentar-se na margem com uma cesta e os peixes com pernas nela se enfiam mesmo sem se revelar necessária uma cana. De resto, o destino também pesca com rede, a social, como este blogue é prova. Quem não deixa que apelos como a tentação, a ganância, ou mesmo a estupidez conduzam ao anzol acaba muitas vezes por ser apanhado nas redes que são feitas de palavras e constituem por isso águas traiçoeiras para a maioria.

As palavras são um isco irresistível, mesmo para as pessoas avisadas. E têm a temível característica de funcionarem como uma armadilha bidireccional, funcionando com idêntica eficácia quando são cuspidas como quando são engolidas. Num caso ou no outro, até o peixe graúdo se deixa ludibriar e acaba a dar à barbatana em seco na doca da incoerência ou no cais do disparate.

Contudo, e ao contrário dos peixes, depois de apanhados não vamos parar ao tacho ou à frigideira e, salvo raras excepções, voltamos a mergulhar de cabeça na vida que, como o mar, tem correntes e tem ondas e tem marés.

E por vezes só nessa altura, com a cara esparramada na areia, percebemos que do arrojo da natação nas águas revoltas e mais profundas, sejam do mar ou de um rio, pode resultar darmos connosco encalhados num imenso baixio.

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publicado por shark às 19:17 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (1)
Quinta-feira, 27.10.16

A posta na carapuça

Apesar de não ser dos mais antigos nisto das redes sociais, nunca o sou em coisa alguma, já possuo alguns cabelos brancos virtuais. Daí, os acontecimentos vão-se sucedendo, tal e qual a vida lá fora, e uma pessoa vai percebendo aqui e além as manhas, os padrões de funcionamento da coisa. Até ao ponto de quase se sentir em casa, ou no café com a malta, nesta ou naquela plataforma de convívio e comunicação.

De resto, em boa medida as redes sociais parecem espaços públicos como as esplanadas e até importamos algumas das regras de comportamento analógicas nesses meios. Algumas, não todas. A sensação de impunidade de que se queixam os caretas amuados por terem sido alvo da crueldade virtual, com cada um/a a fazer o que lhe dá na bolha mesmo sendo óbvio que o não faria sem a protecção de um monitor ou de um touch screen, espelha-se de diversas formas e acaba por denunciar as falhas de carácter de quem as maquilha nas redes.

É por demais evidente que, ao contrário do que dá jeito divulgar por parte dos/as artistas que se pintam fabulosos, as boas maneiras são uma característica inata da pessoa e transportam-se para qualquer meio de comunicação que, por ser virtual, continua a ser feito por pessoas e estas não passam a máquinas por falarem via teclado.

Ou seja, as redes apenas reflectem a verdadeira essência de quem as frequenta, desmascaram sonsos e/ou imbecis com ainda maior limpeza do que se consegue na tal mesa de café na qual, reprimidos/as pela presença física dos interlocutores, disfarçam melhor a natureza que online descuidam com base no falso pressuposto de impunidade acima mencionado.

Alguém incapaz de superar a sua futilidade lá fora arrasta consigo essa característica, porquanto se esforce por se pintar pessoa complexa e bem estruturada. Da mesma forma, quem não seja capaz de sentir emoções sérias ou respeitar ligações fortes e/ou duradouras na rua jamais conseguirá o contrário na net. Mais cedo ou mais tarde, aquilo que somos é aquilo que exibimos e nem sempre o boneco nos apanha no ângulo mais favorável.

É um facto que só se ilude (ou deixa iludir) quem quer. Os sinais estão todos lá para quem escrutinar os outros como o faz na vida real (a outra presume-se fictícia, dá mais jeito às diversas espécies de acrobatas da personalidade). De surpresa, como em qualquer situação ou lugar, só é apanhado quem prefere não reparar nos pormenores nos quais o diabo se esconde.

E é por isso que nunca me sinto surpreendido quando alguém, por medo, por vergonha, por desgosto ou simplesmente por falta de consideração pelos outros, abandona uma rede social ao fim de anos, sem uma explicação e, na maioria dos casos, sem rasto que impeça esse desaparecimento de se tornar total e definitivo.

É que, no fundo, na vida vivida fora das redes são ainda mais as pessoas malcriadas. E também abundam cobardes e desertores/as.

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publicado por shark às 16:29 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)
Domingo, 16.10.16

A parceria

O sem-abrigo acordou com o pressentimento da presença do outro e de imediato rosnou o seu direito de propriedade, ou de ocupação, daquele espaço público mais abrigado que o outro parecia querer reclamar. Ou pelo menos o sem-abrigo assim o temia, calejado pela vida nas ruas que ao relento funcionava como a selva nas suas leis.

Ficaram assim por uns instantes, a entreolharem-se com desconfiança, sentidos bem alerta para qualquer movimento brusco que denunciasse uma má intenção. O sem-abrigo resmungava impropérios contra a vida em geral enquanto o outro apenas rosnava a sua perspectiva similar. Depois calaram-se de novo, saturados ambos daquele desconforto absurdo que se somava ao que já evidenciavam sentir.

Esfomeado, o sem-abrigo procurou no seu saco de recolha de tesouros uma solução. Restos que a civilização lhe proporcionava de entre os excessos que as circunstâncias lhe negaram algures num passado que preferia nem recordar, refugiado numa loucura própria dos seres humanos tombados na sua condição, alienado na luta por algo tão simples como um pouso mais sossegado para dormir.

Antes da primeira garfada no conteúdo do recipiente imundo que conseguira, há horas de sorte, encher na clandestinidade das traseiras de um restaurante gerido por gente de bem, reparou que o outro continuava ali, de olhos postos no repasto. O sem-abrigo identificou de imediato aquela expressão, a sua de tantos dias menos felizes na busca do sustento para mais um dia por viver. O outro já não rosnava, apenas contemplava à distância, pose entristecida, aquele recipiente mágico que lhe parecia uma cartola com coelho à caçadora pronto a saltar para o seu estômago dorido pela sensação quase permanente de vazio.

O sem-abrigo engoliu em seco, atordoado pela sua reacção, apanhado de surpresa por uma emoção que julgava enterrada na mesma sepultura do passado que recusava lembrar. Deu consigo a procurar no velho saco a tampa de uma lata que servia para o efeito na perfeição.

Dividiu a meio a ração disponível e aproximou do outro a metade que lhe oferecia enquanto refilava entre dentes contra si mesmo aquele assomo de generosidade que há muito não experimentava. O outro, receoso mas numa ansiedade indisfarçável, avançava centímetro a centímetro para o alvo da sua cobiça, desconfiado, esfomeado, desesperado pela confiança urgente de sentir naquele instante em que precisava avaliar o risco a ser assumido. O sem-abrigo já comia e olhava de soslaio para o outro, acabando por lhe fazer sinal para avançar com uma mão. E o outro avançou e partilhou com ele aquela refeição magnífica, visivelmente grato pelo gesto e pela companhia.

 

Seria, de resto, esta última que os uniu quando descobriram ambos que já não lhes doíam tanto o abandono e a solidão.

 

homeless and dog.jpg

 

publicado por shark às 16:38 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Terça-feira, 04.10.16

São sombras

São sombras. Projectadas numa das paredes de um espaço hermético para distraírem a solidão, desenhadas por artistas da ilusão que vivem dos olhares alheios que lhes mitigam a sede de um protagonismo qualquer.

Histórias mal contadas, sombras de homem ou de mulher, disfarçadas de coisas a sério numa vida de realidades magoadas sem querer, porque tudo o que se faz de errado era só a brincar e cada sombra mal definida é apenas a culpa solteira de uma má interpretação.

Esboços grosseiros de uma representação na feira das vaidades escondidas nas entrelinhas de um argumento para o filme a preto e branco de sombras que não conhecem a cor e parasitam os arco-íris na ingenuidade da imaginação.

São sombras. Camufladas em paredes mal pintadas, reféns da escuridão.

publicado por shark às 09:44 | linque da posta | sou todo ouvidos
Sábado, 01.10.16

Fim da linha

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 Foto Shark

publicado por shark às 23:24 | linque da posta | sou todo ouvidos
Sexta-feira, 30.09.16

A posta que é a vida a brincar

Sempre que a vida, essa brincalhona, nos encurrala em labirintos também oferece diversas saídas que, na maioria, desembocam em ratoeiras.

 

Na ascensão tudo parece conjugado para sermos transportados ao colo para o sucesso. Multiplicam-se os amparos, expandem-se os horizontes, alargam-se os benefícios e depressa interiorizamos que é a subir que todos os santos ajudam.

Contudo, na queda o fenómeno é o mesmo embora em sentido contrário. O universo parece transformar-se num escorrega e, a brincar, a brincar, sentimos a vertigem do aumento na inclinação que mais favorece a lei da gravidade quando se instala de armas e bagagens na existência. Se é para descer, todos os demónios empurram.

A mesma vida que nos catapulta cada vez mais alto depois do salto inicial num qualquer trampolim transforma-se numa daquelas brocas industriais que até furam os asteróides que cavalgamos a caminho do nosso armagedão pessoal e intransmissível. Sempre a cair.

Claro que gostamos sempre de acreditar que a vida é uma espécie de montanha russa, com ciclos como os da economia do passado, altos e baixos, subidas e descidas. Mas agora que na economia o mar está sempre flat e em permanente maré baixa, a vida parece acompanhar-lhe o ritmo e o parque de diversões parece só fornecer a emoção do salto para o abismo a bordo do comboio fantasma. Bater no fundo é apenas um degrau no rés-do-chão, a meio do caminho para as caves.

Isto porque, como referido na entrada desta prosa, a vida, essa parodiante colorida, não gosta de meias-tintas. Só aceita o horizonte cinzento-escuro por contrastar bem com a alegria do azul que transforma numa miragem, numa aberta apenas sonhada em períodos extensos de temporal. Até o brilho do sol se tornar em mais um dos muitos milagres integrados exclusivamente no domínio da fé.

 

É essa que nos move, mãos dadas com o desespero de causa, no interior do tal labirinto pelo qual deambulamos sem rumo e arriscamos nas saídas traiçoeiras que são afinal entradas para males piores. Em cada uma dessas falsas saídas um novo túnel cuja luz ao fundo não passa do reflexo luminoso de uma parede de betão.

E a vida a acelerar o tempo que passa sem nos fornecer qualquer travão.

publicado por shark às 10:23 | linque da posta | sou todo ouvidos
Terça-feira, 27.09.16

Quanto mais me debates menos gosto de ti

Embora tivesse falhado na intenção de assistir em directo ao primeiro debate das presidenciais americanas, claudicando ainda antes do seu início tardio, reuni a coragem para o ver na íntegra em diferido.

Confirmou-se a minha aposta de que seria a versão western de um hipotético Maria de Belém vs Alberto João Jardim.

 

Nunca fui adepto da política espectáculo, do circo no qual as propostas políticas constituem apenas um detalhe no meio da palhaçada. Igualmente dispenso a euforia palerminha dos balões e bandeirolas que mobiliza militantes, empresas da mais diversa ordem e toda uma estrutura partidária na construção de uma imagem. De uma imagem e não de uma ideia. No fundo, sinais de investimento em meios e em energia para uma operação de maquilhagem à medida dos interesses mediáticos porque, subentende-se, é mais importante divulgar o aparato de uma campanha do que alguma proposta digna de alterar a intenção de voto de seja quem for.

Os debates, como as entrevistas aos candidatos, constituem a minha principal fonte de informação acerca, lá está, das pessoas envolvidas, pois raramente consigo apanhar algo de concreto, de substancial, por entre as acusações e insultos cordiais em que quase sempre degeneram os frente-a-frente ou nas entrelinhas de entrevistas antecipadamente preparadas no sentido de trilharem o caminho do politicamente favorável que o politicamente correcto sempre sugere.

Concentro-me por isso, nem que seja para poder aplicar um critério, nas pessoas. Na forma como reagem a quente às várias pressões e no conteúdo com o qual, pelo menos, definem as suas prioridades em teoria. A prática costuma desmenti-las.

O debate Clinton/Trump permitiu-me distinguir um vencedor, que se tratou de uma vencedora, não pela capacidade de argumentação – melhor a dela, menos dada a devaneios – mas pelo facto de Hillary ter podido ser mais Hillary do que Trump se permitiu ser Trump. Ou seja, ela passou o tempo concentrada no judo intelectual e ele, pobre coitado, aguentou-se como se estivesse o tempo todo aflitinho para ir ao WC enquanto a oponente lhe levava os argumentos e a pose ensaiada ao chão. Isso mais umas passagens recíprocas de raspão pelos pés de barro do par de figurões foi o que consegui aproveitar do show. Nada de novo.

 

O que vejo no meio disto tudo é a confirmação de que a ausência de propostas concretas em benefício dos soundbites apelativos é um fenómeno generalizado e reflecte uma degradação do confronto político que, numa época conturbada, deixa a maioria dos eleitores sem respostas.

Embora a maioria já se mostre sem vontade de perguntar.

publicado por shark às 13:47 | linque da posta | sou todo ouvidos

Relaxem

relax.JPG

 Foto Shark

publicado por shark às 12:43 | linque da posta | sou todo ouvidos
Domingo, 25.09.16

A posta que depois logo se vê

Dediquei alguma atenção à ressaca do incêndio no Andanças, sobretudo porque depois de anos nos seguros percebi que a situação dos proprietários de viaturas danificadas era, não pelo motivo que quase todos julgam, muito complicada de resolver.

Obtive, na televisão, ao vivo e nas redes, a informação que ia sendo veiculada e rapidamente se começou a esboçar a habitual reacção inócua e mal dirigida da opinião pública, como dos media, contra os maus do costume: as seguradoras.

 

Dos vários pareceres de gente mais ou menos informada acerca da realidade manhosa da responsabilidade civil envolvida na resolução do problema, via apólice de seguro, destaquei um ao qual ninguém pareceu atribuir importância mas que, na prática, poderia sempre trazer um problema acrescido ao da já complexa atribuição de responsabilidades: os nossos ineptos legisladores transmitiram uma falsa sensação de segurança ao público quando tornaram obrigatório o seguro de responsabilidade civil para os organizadores de eventos como o Andanças mas não definiram um limite mínimo de capital a segurar.

Ou seja, o Andanças cumpriria a lei com um seguro igual ao do churrasco organizado pela administração de um condomínio.

 

Por esta razão, o insurgir colectivo contra as seguradoras, empresas privadas que dançam a música que a Lei toca e perante as quais se justificam algumas queixas mas nunca a esmagadora maioria, “obrigadas” por lei a aceitarem um risco que num país de baldas é sempre medonho, é prematuro (sem decisões definitivas passíveis de contestação) e acima de tudo mal direccionado pois é ao Estado que compete legislar na defesa dos interesses dos cidadãos e não apenas garantir qualquer coisinha em caso de azar.

Da leviandade com que se confia à iniciativa privada o bom senso de distinguir eventos com milhares de outros com dezenas de pessoas envolvidas, deixando em aberto o valor a segurar e sabendo-se como este altera substancialmente o custo de uma apólice, é que deveriam surgir as críticas. Contudo, já a maioria dava a causa como perdida para os proprietários de automóveis sem seguro contra todos com base na alegada má vontade da seguradora e ninguém apontava o dedo a quem tem o dever de definir as regras do jogo.

 

A coisa acabará no esquecimento, qualquer que seja o desfecho na atribuição de indemnizações aos incautos que acreditaram os seus bens acautelados num evento com tudo legalizado e devidamente aprovado.

E ninguém cuidará de se interrogar como seria, na óptica da apólice de seguro sem capitais mínimos impostos, se dentro dos veículos em chamas estivessem pessoas.

publicado por shark às 19:24 | linque da posta | sou todo ouvidos
Terça-feira, 20.09.16

Um velho incontinente a morrer sufocado por detrás das janelas fechadas

No momento em que escrevo estas linhas acabo de saber que começaram a construir mais um muro europeu, desta vez em Calais. Na fronteira entre duas antigas potências coloniais das várias que exploraram pessoas e recursos por todo o planeta, ao longo de séculos.

Ambas as nações, por coincidência ou não, estão directa ou indirectamente envolvidas nos acontecimentos que estiveram na origem do problema que decidiram emparedar, seguindo o exemplo de alguns países mais próximos dos locais de desembarque e de regimes extremistas tão desprezíveis como os que provocaram o último grande conflito europeu e mundial.

 

Toda a argumentação a que tive acesso até agora não justifica senão a realidade com que nos confrontamos: parte do Velho Continente está a mergulhar de novo nas mesmas políticas odiosas que quase o destruíram por completo num passado tão recente que ainda há gente viva para o contar na primeira pessoa.

O pretexto dos refugiados, perfeito para alimentar a trumpização europeia, surgiu em cena não como uma oportunidade para os europeus acertarem contas com o lado menos bonito da sua história, mas como um bode expiatório excelente para prolongar a negação da agonia dos sistemas democráticos ocidentais à mercê da crise financeira e social que nos atormenta.

Em vez de a Europa abraçar os valores de que tanto nos orgulhamos, acolhendo gente em aflição, estamos, a reboque de uma UE desorientada e em desmembramento, envolvidos na escrita de uma das suas páginas mais tristes.

A construção de muros, imbecil à partida, não é uma solução mas sim um tiro no pé daquilo que apregoamos representar. Nós, os bons da fita, os ocidentais que lutam para salvar o mundo do fundamentalismo, estamos a construir muros para impedir o acesso das suas maiores vítimas à respectiva salvação.

Muros. Com tudo o que representam para a Europa em particular, são, sempre serão, símbolos de um mal que aprendemos a identificar nessa condição. São ícones de tudo quanto os nossos avós juraram impossível de repetir nestas terras arrogantes e sobranceiras, depois de vencerem os bons, também à custa do sacrifício e da coragem dos antepassados dos maus como os tratamos agora e que lutaram ao nosso lado contra a ameaça nazi. São uma vergonha pelo que representam de negação de tudo aquilo que nos fez sonhar com uma federação europeia, pois muitos cidadãos europeus não se identificam com este acumular de pessoas nas fronteiras em condições miseráveis e ainda menos com este bater-lhes com a porta na cara.

Notem que não precisei até este ponto do texto de referir as questões religiosas que fundamentalistas dos dois credos se esforçam por enfatizar. Nem o islamismo professado pela esmagadora maioria dos refugiados, nem a cristandade de fachada dos que são cúmplices por omissão deste virar a cara a quem precisa.

E não precisei porque se trata de uma falácia. Fossem cristãos os refugiados e ficariam do lado de lá da vedação na mesma, por serem pobres, por serem muitos, por não fazerem parte deste eldorado que vamos destruir começando pelos alicerces, renegando a nossa cultura e a nossa forma de entendermos o mundo e entregando o poder às bestas incapazes de vislumbrarem um colapso associado a esta forma nojenta de proceder que nos dividirá, que arrasará a hipótese de um colectivo com base nas afinidades que os extremistas e os cobardes renegam por detrás dos seus paredões farpados.

A União Europeia é, neste momento da história, uma farsa. As divisões entre membros são cada vez mais óbvias e o Brexit é apenas um dos seus prenúncios, com tudo o que isso implica.

E os muros que agora permitimos erigidos no seu interior servirão, mais cedo ou mais tarde, para garantirem essa mesma separação.

publicado por shark às 22:20 | linque da posta | sou todo ouvidos
Domingo, 21.08.16

A posta medalhada

Surpreende-me o tom exaltado que, na maioria dos casos, suscita a minha mania de considerar um fracasso a não obtenção de uma medalha por parte de atletas que, alguns deles legitimados pelos resultados já obtidos, se afirmaram candidatos às mesmas.

Dessa exaltação destaco os pressupostos de que quem está de fora não tem o direito de criticar, pressuposto bizarro,  o de que quem critica não entende o mérito dos atletas e o de que, por critérios que não as medalhas, temos a segunda melhor participação de sempre nas Olimpíadas.

Desmontando a coisa: qualquer atleta, seja de um país como a China ou de um como a Etiópia, tem igual mérito por ter conseguido um objectivo só ao alcance de uma escassa percentagem de seres humanos. Depois podemos ou não enfatizar as condições que lhes foram dadas para lograrem um mesmo propósito. Mas isso já são detalhes, neste contexto. Eu sei que seria incapaz de obter tal desígnio, tal como presumo que alguns dos que obtive, embora inexpressivos por comparação, não estariam ao alcance de alguns atletas. Soa irrelevante, esta comparação, e é. Mas é o que está na base da argumentação para me descredibilizarem até no direito à crítica.

Por outro lado, ao longo do tempo que antecede as Olimpíadas, toda a gente sem excepção concentra a atenção num objectivo que é tido como o mais importante no valorizar da participação colectiva nesta competição: a obtenção de medalhas. Em Olimpíadas do passado ninguém se preocupou com as participações honrosas dos não ganhadores mas apenas com a figura de quem regressou medalhado/a. E isso nada tem de errado, precisamente por existirem três realidades que distingo na Olimpíadas: a de lograr a qualificação – nesta todos são ganhadores e já não precisam provar nada seja a quem for -, a de dignificar o país e transcender as melhores marcas pessoais e a de vencer competições ou, neste caso, pelo menos atingir o pódio.

Porque me parece importante concentrar nas medalhas o balanço da nossa presença nestes Jogos Olímpicos? Porque sempre foi, de facto, o instrumento de “medição” do sucesso ou do insucesso das delegações olímpicas na percepção de quem interessa (o grande público e os media). Nesta perspectiva, todos quantos por um lado veneram o cumprimento apenas parcial dos objectivos propostos pelos próprios atletas e por outro criticam a falta de condições que lhes são dadas para conseguirem ir mais além estão a fazer o jogo do Estado se este quiser manter tudo como está. Se temos, aos olhos da multidão e dos critérios que não as medalhas, a segunda melhor participação de sempre, queixam-se de quê?

E este último aspecto deixa-nos conversados quanto ao argumento de que quem não fez nada ao longo de quatro anos para lutar por melhores condições não pode exigir agora medalhas.

Nunca as exigi, mas alguém as prometeu.

 E daqui a quatro anos conversamos outra vez.

publicado por shark às 16:37 | linque da posta | sou todo ouvidos
Sexta-feira, 05.08.16

Pela porta pequena

Li algures que a moral é o conjunto de regras aplicadas no quotidiano e usadas continuamente por cada cidadão. Essas regras orientam cada indivíduo, norteando as suas ações e os seus julgamentos sobre o que é moral ou imoral, certo ou errado, bom ou mau. E a ética será o resultado de uma reflexão acerca da moral.

Sempre entendi o exercício do poder como uma actividade na qual a ética deve ser prioritária, no sentido de certificar acima de qualquer suspeita a prática de uma moral intocável na sua definição de prioridades. Ou seja, uma função ao alcance de poucos/as.

Quando está em causa a gestão dos destinos de um país ou a representação dos seus cidadãos na defesa de uma causa comum que é, aos meus olhos, sagrada, qualquer violação da moral vigente, qualquer desvio ao eticamente aceitável é um acto de traição. Ao país e aos princípios que devem prevalecer nas decisões de quem o governa.

Vejo como uma desonra a leviandade dos que ocupam o poder quando, escudados na impunidade garantida pelos próprios com legislação feita à medida, se deixam tentar pelas ligações perigosas, pelas influências manhosas de outros poderes perante os quais pela cumplicidade se tornam reféns. Não há excepções, não há perdões, há o imperativo moral de preservar uma Pátria da falta de carácter, de Sentido de Estado ou apenas da imaturidade dos seus decisores.

Existe apenas um caminho a seguir quando um responsável político se vê exposto na imoralidade e ainda que protegido das consequências legais pelo atrás referido: a demissão do cargo que ocupa a fim de evitar o contágio aos restantes e para servir de exemplo aos seus sucessores.

Não há paninhos quentes capazes de devolverem a credibilidade perdida por via de um acto ou omissão potencialmente lesivos dos interesses do Estado e, por inerência, de todos os cidadãos. E à perda da credibilidade, nem que apenas pela ingenuidade admitida e comprovada, está associada a perda do respeito indispensável a qualquer liderança.

Enquanto os responsáveis políticos não interiorizarem a moral a que estão obrigados no exercer de cargos com tamanha responsabilidade e que deveria orgulha-los em vez de nos envergonhar, não há códigos ou mesmo leis que as imponham nos bastidores onde acontece, ás escondidas, aquilo que nem chega ao conhecimento público até ser tarde demais para evitar o prejuízo.

E o maior deles, quando não se aplica pulso de ferro às escassas situações que caem no domínio público, é a própria democracia quem o suporta.

publicado por shark às 18:44 | linque da posta | sou todo ouvidos

Em dia não

em dia não.JPG

 Foto Shark

publicado por shark às 17:20 | linque da posta | sou todo ouvidos
Quarta-feira, 03.08.16

Sem marcas de travagem

Ias na boa, pela vida fora, sempre a direito, mais curva, menos curva. Velocidade de cruzeiro, dentro dos limites que te impõem porque se calhar não sabes tomar conta de ti. E dos outros que podes arrastar nos teus despistes.

Estavas a atinar. Seguias o caminho sem te meteres em atalhos. Sem arriscares os becos sem saída no final das estradas que levam a lado nenhum, atento aos sinais, certinho mapa fora, sempre nas linhas traçadas por quem já lá chegou. Porque se calhar perdias-te, vida complicada, cheia de desvios, percalços e tentações. E os outros que podem desencaminhar-te para as vias secundárias, tresmalhados do rebanho imobilizado no meio do trânsito medonho da vida como dizem dever ser.

Sempre com o pé em alerta, em permanente carícia ao pedal do travão. E a aceleração controlada, a vida tem vigilância instalada para caçar os mais apressados, aqueles endiabrados corredores que não respeitam as regras da circulação adequada numa vida como dizem dever ser percorrida desde o ponto de partida até outro ponto qualquer.

Na boa, vida adentro, sempre a direito por onde for permitido pelo código seguido por todos e por um. E esse és tu, cumpridor, olhos bem abertos à sinalização vertical mais os traços contínuos que são as linhas que nem podes pisar, sempre a direito pelo troço mais recomendado para atingir um objectivo volante, uma miragem circulante parecida com uma cenoura motorizada. Um ponto de chegada repleto de reticências e de interrogações.

Na vida a circular, no eterno retorno ao caminho mais indicado para chegar a algum lado, sem saber onde nem porquê. O pára-arranca forçado, a ilusão de mudança que afinal está sempre engatada na mesma posição.

Distraem-te estas congeminações quando te confronta pouco adiante uma inesperada bifurcação. Abrandas a passada para tomares a decisão mais acertada, pela esquerda ou pela direita, por ali ou por além, rejeitas o impulso instintivo de seguires por onde te apetecer porque a vida como dizem ser está reflectida nas indicações de terceiros, nas opiniões prioritárias de quem já por ali passou.

 

Ninguém buzinou para te avisar da traseirada, tinhas a vida quase parada e ignoraste as lições reflectidas nas suas memórias do espelho retrovisor.

Já estavas com o pé no acelerador quando se produziu a ocorrência. Tinhas decidido arriscar uma abordagem diferente, uma escolha inconsciente e desprovida de orientação, pela tua própria cabeça, pelo teu próprio coração, estrada fora até ver.

De mãos na cabeça pelo que sentes como uma injustiça, questionas a vida: não fazes sentido algum e isto prova que tenho toda a razão!

E ela, de passagem, sussurra-te:

Esqueceste-te de ligar o pisca, cabrão…

publicado por shark às 11:46 | linque da posta | sou todo ouvidos

Sim, sou eu...

Mas alguém usa isto?

 

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