Eu não gostava de viver num mundo dominado pelos americanos do Bush.
Também não gostaria de viver num mundo dominado pelos chineses do PC.
Não me cheira que o domínio dos russos fosse do meu agrado.
E nem pensar em qualquer nação ou grupo de nações sob controlo de fundamentalistas islâmicos.
Dou comigo numa bizarra interrogação quando, em alternativa à opção óbvia por domínio algum, coloco a hipótese de um mundo dominado pelos portugueses de hoje.
E instala-se um estranho desconforto na minha alma patriota.
Foto: Shark
Vivia na mesma gaiola onde um dia nasceu. Nada mais conhecia do que aquele espaço e vivia feliz, cantava de uma forma que agradava e tratavam-no bem, sorriam e não raras vezes diziam que era a alegria daquela casa.
Mas um dia colocaram a gaiola muito perto de uma janela e conseguiu pela primeira vez espreitar a rua, outro mundo, e reparou lá ao fundo num bando de pombos que passeavam pelo céu e pareciam celebrar o calor do sol.
Olhou as próprias asas e foi então que se apercebeu da realidade da sua condição, passava o dia inteiro num doce cativeiro em vez de partilhar a alegria de voar em liberdade com os seus iguais.
E foi nesse dia que decidiu não cantar mais.
Uma pequena facção da blogaria portuga decidiu publicar um manifesto em abono da liberdade de expressão. E mais, decidiram mesmo ir mais além do que o protesto virtual (que ninguém proibiu ou censurou, até ver) e promovem uma manif à maneira diante do Parlamento à hora de almoço de um dia de semana para a malta assar uns chouriços e lutar pela causa.
A causa está aqui toda explicadinha e só falta saber o que tem a ver com a blogosfera (que eu saiba, nenhum dos signatários foi alvo de alguma limitação na sua verborreia) para que a iniciativa seja anunciada como de bloggers e não de simples cidadãos.
Eu até sofro da urticária a tudo quanto cheire a limitação desse direito essencial e se algum dia qualquer poder tentar meter o bedelho nesta via serei dos primeiros a reagir à bruta. Contudo, não consigo entender a motivação (as más línguas poderão sugerir a boleia mediática que a TVI, por exemplo, não deixará de conceder) como não consigo enquadrar a cena enquanto fenómeno blogueiro.
Sim, é verdade que da lista de subscritores da coisa constam muitos nomes de pessoas que blogam mas não estou a ver bem a associação de ideias ao seu estatuto de membros desta comunidade a que pertenço.
São, em resumo, cidadãos livres de refilar que vão exercer o seu direito de exprimir a vontade de serem livres de o fazer mesmo quando nenhum desses cidadãos refere algum caso concreto de que tenha conhecimento para lá do que vamos lendo nos jornais e ninguém conseguiu até agora comprovar.
Sou apologista da união de forças por parte de quem bloga, embora considere que no caso em apreço não exista forma de justificar este leviano invocar da condição. Ou seja, trata-se de uma iniciativa mobilizadora de um grupo de pessoas que por acaso blogam e entenderam recorrer a esse meio de divulgação para anunciarem a sua intenção de protestar contra algo que não sentiram na pele ou então acompanham uma Comunicação Social diferente da minha.
Estou céptico quanto ao sucesso do evento enquanto agregador de qualquer grupo específico de cidadãos, mas claro que não posso ignorar o facto de, por exemplo, o blogue do Centro Paroquial de Gondar apoiar a coisa.
Às tantas estamos perante o embrião de algum poderoso levantamento popular.
Mas eu não alinharei na defesa dessas barricadas. ..

Foto: Shark
Com pressa. A tapar a pequena fresta por onde se escoa a vida, ao ritmo do tempo que lhe resta, cada oportunidade perdida uma pequena tragédia pois não existe forma de recuar no tempo que continua a escapar a todo o momento pela ferida que se abre em cada vida no milagre de nascer.
Liga dura. O campeonato a disputar, até morrer, pelo direito a viver nas melhores condições possíveis, enfaixado o destino por um manto de incógnitas que não permitem vislumbrar o seu futuro por acontecer e que dizem previamente traçado por forças que não podemos entender porque nos são infinitamente superiores, as sortes e os azares que definem o percurso sempre difícil pelo tempo de que dispomos para o percorrer.
Penso rápido. Acelero o raciocínio para jamais atrasar cada decisão a tomar porque pode fazer-se tarde, o tempo é como chama que arde até se extinguir para quem deixa de o sentir, no golpe final do tal destino cruel no seu gosto irritante pelas interrogações. A incerteza de possuir ou não a esperteza suficiente para as opções a fazer, para entender o carácter urgente de saber escolher o desvio mais adequado para fintar o tempo apressado que nos toca de raspão (em termos cósmicos) e nos fere o coração com o mesmo empenho com que o mima com tudo aquilo que de bom a vida nos dá.
Enquanto andamos por cá inventamos emergências, atordoadas as consciências pela necessidade de aproveitar o tempo que resta para prosperar ou apenas garantir a sobrevivência, o mote para cada urgência que tornamos prioritária nos dias que não fazem história porque os esbanjamos na triagem das prioridades que apenas servem para nos manter alienados em realidades forjadas em função de objectivos traçados sem ter em conta o tempo que é quem manda afinal e esse não distingue o que é bem do que é mal e segue o seu caminho aleatório pelas diferentes percepções que dele se recolhem, como um rolo compressor sem critério nem rigor excepto na futilidade da sua medição.
O tempo que cada coração entende bater até chegar o momento de morrer o corpo que alberga tudo aquilo que somos afinal e que se transfere para outro lugar qualquer como precisamos acreditar para o tempo se justificar de alguma forma, o que desperdiçamos na ilusão de que lutamos mesmo para o viver melhor neste confronto permanente entre o sentido do dever que nos é incutido, vá-se lá saber porquê, e o apelo reprimido do instinto que tudo vê com maior nitidez e nos alerta para a lucidez indispensável que nos acorde para a mais que provável constatação da necessidade de cuidados intensivos para o coração e nunca os primários, as pequenas doses de anestesia ou uma ligeira profilaxia para a sua dor quando lhe falta o amor ou outros remédios essenciais.
E os efeitos placebo que aceitamos normais são tempo perdido porque este acaba esvaído na sua lenta hemorragia na realidade com que cada dia nos afasta, (im)pacientes, do prognóstico acertado quanto às hipóteses de salvação.
O preço de um diagnóstico errado à doença de um tempo flagelado pela sua mutilação.
O seleccionador nacional de futebol envolveu-se num sururu com o Jorge Baptista, comentador da SIC.
E consta que foi o homem da tv quem levou que contar...
Se a Justiça e a Política há muito só produzem novelas mexicanas, a Economia parece mais inclinada para as tragédias gregas...

Foto: Shark
Vocês não fazem (nem querem fazer) ideia do que é estar a estas horas a preencher um formulário intitulado Questionário de Risco...
Teresa Pires e Helena Paixão são duas mulheres, cidadãs portuguesas, que enfrentam enormes dificuldades financeiras e outras ainda piores não por serem lésbicas mas, para minha vergonha enquanto cidadão do mesmo país, por terem a coragem de assumir a ligação e o seu amor de forma pública.
Se para mim já é impossível entender qualquer tipo de discriminação de pessoas em função das suas preferências (homos)sexuais, repugna-me ver gente corajosa pagar um preço por renegarem a hipocrisia e rejeitarem a clandestinidade envergonhada.
O calvário vivido pela Helena e pela Teresa tem assumido proporções abjectas, sendo sujeitas a todo o tipo de discriminação que afinal não passa de uma represália por serem pessoas frontais e com os tomates que faltam aos indecentes cobardolas que as hostilizam.
É indigna a intolerância, seja manifestada a que pretexto for, quando estão em causa opções individuais que em nada afectam terceiros (quem não gosta não come) e ainda menos são contas do seu rosário.
Pior ainda, é nojento que duas pessoas sejam marginalizadas ao ponto de raramente conseguirem permanecer na mesma casa por mais do que alguns meses e não conseguirem manter um emprego só porque assumem que se amam e fazem vida juntas.
Sim, para este como para todos os efeitos é de pessoas que se trata. Não sei se são boas ou más pessoas sequer, nem me interessa. Sei que tiveram um acto de coragem ao darem a cara diante de câmaras de televisão quando reclamaram um direito que a Lei hoje reconhece e isso basta-me para me orgulhar de serem portuguesas como eu.
E não me venham com ideologias, que sou de esquerda e mais não sei o quê, pois o respeito pela diferença não é uma questão política ou partidária. Ninguém me verá advogar a homossexualidade, da mesma forma que não pretendo converter alguém à minha onda hetero. Cada um/a sabe de si e eu respondo pelas minhas escolhas e não tenho o direito de não permitir que os outros respondam pelas suas com exactamente a mesma liberdade de actuação e sem por isso sofrerem punições sociais.
Cabe na cabeça de alguém que façam a vida negra às pessoas pelo motivo em causa? Querem o quê, que as pessoas se escondam, que mintam, que tenham vergonha de si próprias por serem diferentes? O que ou quem concede esse direito? E que pretendem de facto obter com tal comportamento, alguma espécie de normalização, de padronização das pessoas em função do género? E da cor, não é? E do estatuto social, que tal?
É mesmo uma questão de princípio daquelas que nem requerem muita inteligência para lá chegar: as pessoas têm o direito a viverem as suas vidas como entenderem, desde que não interfiram de forma alguma com os direitos dos outros.
E na questão de que vos falo, a da vergonhosa conduta de cada autor de um gesto hostil para com duas pessoas pelos motivos que refiro, não existem direitos a invocar.
Existem deveres de respeito, de consideração, de decência e de vergonha na cara que ninguém dispensa nos outros e, nem que seja só por isso, devemos todos assumir por inerência.
São indissociáveis, a boca generosa mas um nadinha palerma da Manuela Moura Guedes e a boca retorcida mas um nadinha imbecil do Mário Crespo. Foram unidas, siamesas, pela intervenção cirúrgica (uma lobotomia) dos que se entretêm a produzir mártires da Imprensa para a Imprensa glorificar.
A liberdade de expressão, essa jovem motivadora de uma súbita ansiedade de muitos dos que há umas décadas atrás anuíam agradados pela sua bolinha baixa, está de novo a servir de mote para um qualquer figurante se empoleirar num falso estatuto de protagonista.
O filme em causa é uma produção fictícia embora de humor só tenha o ridículo do guião. A Manuela, tal como o Mário, são sumidades fabricadas, tão made in china como as lanternas baratas que começaram a inundar o mercado na ressaca do sismo no Haiti e surgiram igualmente por coincidência e não por virem a talhe de foice para agitar as águas passadas do papão da maioria absoluta que meses atrás, no episódio da Manuela, ainda poderiam ter esse álibi democrático (adoro estas expressões da moda) mas no caso do Crespo pecam por absoluta falta de nexo.
Bom, começo por declarar publicamente a minha aversão aos dois cromos a que acima faço referência. Isto para que não restem dúvidas quanto à parcialidade da minha opinião.
Essa indiferença que degenerou em repulsa na sequência das pantominas do par de figurões (figurinhas) deriva da minha avaliação enquanto espectador e leitor daquilo que foi o seu trabalho medíocre ao longo dos anos em que os suportei.
Uma e outro quase se celebrizaram pelas suas tiradas a despropósito ou, mais frequentes, pelos seus excessos típicos de quem comprado pelo que vale e vendido pelo que julga valer renderia uma fortuna a qualquer negociador.
Essa é a minha opinião de amador, de anónimo a quem impingem estes fósseis por questões conjugais (tirem o pedestal moniz à manela e logo se verá o tamanho do trambolhão) ou por simples habituação (como um gajo usar sempre a mesma marca de lâminas só porque sim, porque é costume e tal) ou apenas porque neste país os medíocres continuam a promover-se entre si à fartazana e depois dá no que se vê e se lê.
Da Manuela Moura Guedes retenho uma tentativa de execução sumária de Marinho Pinto em directo. Saiu enxovalhada, o Bastonário não é um menino de coro, e deveria ter sido corrida do seu posto logo nessa altura.
E do Mário Crespo fixei uma entrevista a um médico ao longo da qual o jornalista interrompeu o entrevistado de forma repetida para falar de um seu problema antigo de saúde e acabando por transformar a dita entrevista numa consulta de Clínica Geral ao vivo.
São duas referências a que por acaso assisti e dizem o que há a dizer da personalidade da dupla-maravilha que dá a cara (ainda maior azar o nosso) pelo novel fantasma da censura aos grandes profissionais da informação parola e umbiguista da nossa praça.
Por tudo isto não consigo entender o alarido em torno de seja o que for que envolva aqueles dois e só falo no assunto porque de vez em quando um gajo precisa de temas actuais para uma posta e qualquer palhaçada é sempre um tema divertido para escrever.

Foto: Shark
Existem problemas na vida que nos aterram no colo mesmo quando tudo fazemos para os evitar. Coisas que começam de forma aparentemente inócua, simples de resolver, e que de repente assumem proporções descontroladas tanto no grau de ameaça que representam como no impulso primário que nos leva a reagir sem estribeiras e nos esgota no sentido de o conter.
De há uns tempos a esta parte tornei-me quase um eremita, tentando fugir dos outros para assim poder encontrar um pouco da paz que me faltou. O método resulta e de facto evita algumas confusões e sarilhos tradicionais. Mas não é infalível nem oferece garantias de durabilidade.
E a vida (ou o destino, ou deus ou o que preferirem) encontra sempre forma de nos confrontar com dilemas terríveis, situações complicadas, problemas que soam irresolúveis e que nos desafiam a estrutura e nos obrigam a repensar alguns pressupostos que gostamos de ter como dados adquiridos.
Se um problema pode constituir factor de perturbação quando nos afecta directamente, o seu impacto é exponencial quando estão em causa os filhos e é sobre eles que recai qualquer tipo de aflição ou de repercussão foleira potencial. Basta uma doença mais assustadora para nos arrependermos de não termos seguido Medicina em vez de outra coisa qualquer...
Contudo, se a uma doença podemos reagir com a determinação de quem tudo faz para a combater pelos melhores meios ao alcance a outro tipo de maleitas, sociais ou assim, já não conseguimos aplicar a mesma resignação que nos vale para suportar o galo de um qualquer bicho microscópico ter batido à porta da nossa cria.
Abrimos de imediato, por instinto, as garras e arreganhamos a dentuça para defender ao ataque e assumimos a dinâmica panzer. Ou kamikaze, se necessário.
E estes termos bélicos indiciam essa verdade insofismável para mim: é de uma guerra que se trata quando estão em causa os interesses ou a segurança da minha filha e essa ameaça deriva de terceiros perante os quais ela esteja em manifesta desigualdade de circunstâncias.
Não sou, de todo, um arruaceiro. Mas jamais me permitirei o pecado da negligência, do optimismo, da fé que aplicada aos outros vale sempre aquilo que eles tiverem para dar.
Nós pais agimos quase sempre como animais feridos quando os filhos sofrem ou arriscam sofrer qualquer dano provocado pelos outros, os tais de quem tenho tentado afastar-me. Qualquer actuação alternativa consome-nos e deriva apenas do bom senso que mobilizamos a custo para não deitarmos tudo a perder na sequela de uma intervenção desastrada.
Pousamos o lança-chamas e deitamos a mão ao extintor, tentando numa primeira fase apontar para o interior de nós mesmos e não deitar para a fogueira as achas do incêndio que nos consome por dentro e nos vemos na contingência de combater em paralelo com o pânico e a ira que alguns cenários plausíveis nos ateiam.
E isso esgota uma pessoa, acreditem.
Parece que vai mesmo concretizar-se a ideia (para os parvos peregrina) da Conta Poupança-Futuro, um depósito (um investimento) do Estado no valor de €200 por cada bebé e que poderá ser reforçado pelos progenitores até à maioridade, altura em que o saldo obtido estará disponível para custear a entrada na idade adulta se o jovem tiver conseguido completar o 12º ano de escolaridade.
Em resumo é isto. E tal como aconteceu com o Magalhães, a quem toda a gente se apressou a apontar defeitos, limitações e ainda a fiscalidade manhosa da empresa responsável, não faltam os melgas prontos para encontrar as múltiplas falhas e esquemas e conspirações associadas a esta iniciativa a todos os títulos notável.
Consigo sempre surpreender-me com a mesquinhez generalizada, mesmo tendo-a como um facto indissociável do mau feitio portuga. Por isso fico boquiaberto quando ouço argumentos como o de que só poder levantar o pilim depois dos dezoito faz com que não traga grande benefício às pessoas mais desfavorecidas, uma estupidez típica da mentalidade espalha-brasas e imediatista que vai acabar por nos pôr todos a pedir.
Mas também acho notável o esforço de associar esta iniciativa do Governo a um conluio qualquer com a Banca, mesmo sendo apenas opcional o depósito numa instituição bancária em vez de confiado à gestão directa do Estado, uma teoria própria dos deita-abaixo que nem coisam nem deixam coisar.
Todavia, o mais imbecil e ingrato dos argumentos é o clássico: “ah, só duzentos euros? Isso mesmo em dezoito anos não vai dar quase nada no fim.” Ó suas aventesmas: é dado, oferecido, grátis! Nem que fosse metade, gente tola...
A Conta Poupança-Futuro abre um precedente a ter em conta, pois trata-se de uma medida que (a cerca de metade do custo de um só helicóptero daqueles muita bons que o Portas nos arranjou) estimula hábitos familiares de poupança, incentiva o sucesso escolar e ilustra uma forma decente de aplicar o dinheiro dos nossos impostos (o que é raro nos dias que correm).
Daí a minha falta de pachorra para quem se vai debruçar com afinco sobre o assunto em busca do pelinho encaracolado capaz de desmascarar mais um provável embuste colossal. Sim, continuo a evocar a reacção ao Magalhães do qual poucos perceberam a dimensão e relevância, tão entretidos que andaram os restantes a procurarem as debilidades num projecto levado a cabo num país que até há poucas décadas atrás era uma absoluta parvónia em termos tecnológicos e não só.
Detestaria estar na pele de qualquer Primeiro-Ministro de Portugal que leve com esta maltosa tão afeiçoada ao cepticismo, à inveja, à ingratidão e ao desdém. Parece que quem manda nunca acerta se não mandar com a nossa cor. Ou mesmo que assim seja, pois aí pegamos pela personalidade, pelos hábitos sexuais ou seja pelo que for que possa inferiorizar o líder de ocasião.
Até a arrogância serve de argumento para arriar no Sócras, esse malandro.
De resto, um argumento esgrimido muitas vezes pelos que manifestam a sua saudade pela imensa austeridade e disciplina imposta pelo simpático Salazar...

Foto: Shark
Como passar as narinas com suavidade por uma pétala e sentir a fragrância natural do amor que expele cada poro numa pele desejada, numa flor reencarnada em corpo de mulher que se cheira e se quer no preciso instante em que o potencial amante recebe o impacto do odor que lhe desperta no interior aquela vontade que se tem de ir mais adiante, mais além, e mergulhar sem demora no canteiro daquele jardim.
Como deslizar sem fim a atenção de um olhar pelos contornos de uma paisagem esculpida pelo vento, pela erosão, e disparar o coração num galope desenfreado pelo corpo de mulher deitado numa cama onde queremos estar para ocuparmos aquele lugar vago no paraíso que chama por nós, enfeitiçados pela imagem que recolhemos ao longo da viagem em que os olhos nos transportam sem pressas até junto das portas do céu.
Como passear as cabeças dos dedos no mais sedoso tecido, pelo corpo de mulher despido, acariciar a textura perfeita e receber em troca a maravilhosa sensação de perceber amor e tesão concentrados num único e prolongado arrepio que parecem percorrer de imediato um fio condutor, energia, das coisas ligadas à corrente do amor que se faz também pela forma sensual de tocar a perfeição com o ardor da paixão e a suavidade de quem caminha sobre papel de arroz.
Como escutar um rio desde a nascente até à foz, o desenho dos cabelos compridos espalhados pelo corpo de mulher, pelas costas, pelas margens beijadas enquanto a água se agita como fervente no seu percurso urgente até ao ponto de chegada onde a força do mar é reforçada para o confronto com falésias mais resistentes do que o betão das barragens que inventam cascatas quando o rio se agiganta e se faz ouvir imponente na vontade de prosseguir até ao fim do caminho traçado naquele corpo molhado de prazer.
Como saborear um corpo de mulher com o gosto do amor no paladar, o sexo a latejar a verdade e a consequência do coração a reagir ao sabor mais apreciado, o do corpo tão amado naquele instante em que se transforma num corpo amante e se torna mais salgado pelo suor libertado e, ao mesmo tempo, adocica o tempero da emoção que se beija e que se lambe, que se chupa e se invade com ímpeto de um exército conquistador, senão com os sentidos alerta e com a alma desperta pelas sensações mais intensas que podemos experimentar?
O alívio tão evidente quando não precisa de estar presente a lembrança, o excesso de confiança que tudo pode degradar, corrosivo, com o calcanhar de Aquiles possessivo a tirar com uma mão aquilo que não deu com a outra.
A desculpa sistemática que se torna automática quando a soma das coincidências já minou as paciências dos dois lados da barricada numa batalha perdida por não existir um alvo a abater, pontapé para canto que já nem suscita um lamento mas apenas a progressiva debilidade na reacção.
A incómoda sensação de não valer a pena tentar resolver o problema que afinal parece sempre resultar de um mal menor e nunca da agonia de um amor, um equívoco entre tantos que azedam os poucos momentos do contacto possível e desviam a atenção do essencial da questão mesmo quando não sabemos sequer qual é.
A dúvida que prejudica a fé de quem não abraça o cepticismo mas precisa de ver para crer, em si própria, essa pessoa que tenta dizer em vão aquilo que lhe vai no coração mas esbarra numa muralha de pedra que espalha o azedume como regra porque acaba por trazer a lume as questões mal abordadas ou simplesmente relegadas para um amanhã distante ou nenhum.
A necessidade de abrandar, ou no mínimo de aligeirar a pressão abdicando aos poucos da vontade de reclamar e antes deixar andar ao sabor do vento o efeito provocado pelo tempo e levar menos a sério tudo aquilo que para os outros seja levado a brincar.
A certeza de não ficar com pesos na consciência apenas por aceitar a influência de factores impossíveis de controlar, agindo a todo o tempo com o sopro do vento de feição para insuflar o coração rumo ao melhor resultado final que é o da vitória total contra a saturação que se desenha na expressão e fica com as costas desnudas nas palavras acaloradas de um pequeno conflito qualquer.
O que se disser a mais serve apenas para depois alimentar a fornalha onde se reacende a tal batalha que não é preciso travar porque não existe algo a ganhar ao longo da disputa onde na prática ninguém escuta o teor da argumentação.
E essa é a melhor razão para deixar cair tudo aquilo que se possa sentir mas sirva de pretexto para questionar os factos (alegadamente) bem definidos que possam sustentar todas as certezas, dados adquiridos, e suscite as tristezas que um dia serão invocadas por quem prefira reclamar vitória por assim se sentir melhor do que reescrever, para assim prevalecer, uma história bonita de amor.

Foto: Shark
Um sábado que acaba com um gajo a aperceber-se do facto de estar sentado a assistir a uma actuação ao vivo do José Cid não pode ser um sábado normal.
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